SÓ FALTAVA O AMOR – PARTE I

“Tinha dinheiro, trabalho, cargo, sucesso, mulheres, viagens, sexo, gastronomia… Tinha tudo! Mas…

– Você não pode me demitir!

– Posso sim! Vá até o Departamento de Pessoal para acertar suas contas. E espero não ter que ver a sua cara nunca mais.

– Isso não é justo! Fernanda, por favor…

– Adeus!

Fernanda Oedam é uma empresária de sucesso. Rígida e competente, não suporta pessoas que não correspondam às suas expectativas.

Com a aposentadoria de seu pai, Fernanda herdou a Construtora Oedam, uma das mais importantes do País, e há 2 anos, administra magistralmente, com pulso firme.

– Com licença, Fernanda.

– Entre, dona Norma.

Norma é secretária da empresa há 15 anos. Pessoa de confiança do pai de Fernanda, e agora, dela.

– O que houve com Camila? Ela saiu soltando fumaça pelas ventas.

– Eu a demiti.

– Demitiu?! Por quê?

– Porque ela é incompetente. E não suporto pessoas que misturam a vida pessoal com a profissional. A senhora trouxe os relatórios que pedi?

– Sim. Estão todos revisados, só falta você assinar.

Fernanda pega a pasta das mãos de Norma.

– Depois que eu ler tudo e constatar que está como pedi, eu te chamo. Obrigada.

Norma entendeu o recado e saiu da sala.

Depois de um dia cheio, Fernanda vai para o seu duplex, em um dos prédios construídos pela Construtora Oedam.

Toma banho, se veste, e sai para jantar em seu restaurante preferido. Bebe uma taça de vinho, enquanto aguarda sua amiga.

Uma linda mulher, com cabelos longos e castanhos, chega ao restaurante. Dá um beijo em Fernanda e se senta. Fernanda olha para o relógio.

– Ah, não, Fernanda! Sem neurose, por favor.

– Você está atrasada 40 minutos. Eu já estava desistindo de te esperar.

– Cheguei! Pronto! Você já pediu?

– Ainda não.

Elas olham o cardápio e fazem os pedidos. Depois de jantarem, elas saem em direção a uma boate.

– Fernanda, nem sei como te agradecer por me acompanhar a esta festa. Não conseguiria ir sozinha.

– Não se preocupe! Você fica me devendo.

Ao entrarem na boate, elas se dirigem a uma mesa, onde estão várias mulheres.

– Paula?! Eu não acredito que você veio!

– Nem eu, Nina! Nem eu.

As amigas se cumprimentam.

– Você não vai me apresentar à sua amiga?

– Ah, claro!

Paula apresenta Nina para Fernanda.

– Nina, elas já chegaram?

– Sim. Estão na pista de dança. Tem certeza que você quer ver isso? Digo… As duas juntas?

– Tenho. Preciso ver para tentar esquecer.

– Tudo bem. É você quem sabe.

Em seguida, duas mulheres chegam à mesa. Uma delas cumprimenta Paula.

– Oi, Paula. Como você está?

– Apesar das circunstâncias, estou bem. E você, Cláudia?

– Bem também. Paula, eu gostaria de te pedir um favor.

– Não precisa se preocupar. Não darei escândalos.

– Obrigada.

Paula e Cláudia namoraram durante 3 anos e pensavam em morar juntas. Até que Eliana apareceu e as separou.

Cláudia se senta ao lado de sua atual namorada. Eliana parecia fazer de tudo para provocar Paula.

– Amiga, finja que não está vendo.

– Ai que vontade eu tenho de matar essa garota.

– Mas é exatamente isso o que ela quer. Que você perca o controle e desça do salto. Paula, não dê esse gostinho a ela. Você é superior a isso.

– Obrigada, Nina. Onde está Fernanda?

– Não sei. Deve ter ido ao banheiro. Aliás, você e ela…

– Não! Fernanda é minha amiga há anos.

– Ela é solteira?

– Solteiríssima! Mas esquece, Nina! Fernanda não se apega a ninguém, só pega.

– Isso porque ela ainda não provou a doce Nina.

– Ok! Depois não diga que eu não avisei.

Do outro lado da boate, Fernanda conversa com uma mulher.

– Estamos conversando há alguns minutos e eu ainda não sei o seu nome.

– Lenise. E o seu?

– Fernanda. Você está sozinha ou acompanhada?

– Estou com meu namorado. A irmã dele é homossexual e está comemorando o aniversário aqui, por isso eu vim.

– Entendo. Então, aquele olhar, a insinuação… Foi imaginação minha?

– Não. – Respondeu a garota, com um sorriso tímido.

– Quer ir para um lugar mais calmo?

– Agora?!

– Sim! Agora!

Lenise procura o namorado.

– Amor, preciso ir embora. Menstruei e não tenho absorvente aqui.

– Caramba, Lenise! Como pôde deixar isso acontecer?

– Não tenho culpa! Adiantou! O que eu posso fazer?

– Minha irmã vai ficar furiosa se eu sair agora.

– Você não precisa ir, pego um táxi.

– Tem certeza? Se quiser…

– Não precisa. Quando eu chegar em casa, eu te ligo.

Enquanto isso, Fernanda se despede de Paula.

– Poxa, Fe! Você prometeu ficar comigo!

– Não. Eu prometi que traria você. Já trouxe, agora vou embora. Sua amiga te faz companhia.

– Fica, Fernanda! Nem tivemos tempo para conversar! – Diz, Nina.

– Preciso ir. Tchau.

Fernanda beija o rosto de Paula e vai embora com Lenise.

– Ai, Fernanda! Que delícia! Ah…

Fernanda e Lenise estão em um motel. Lenise delira com os toques e beijos de Fernanda em seu corpo. Depois de saciadas, Fernanda se levanta e vai para o chuveiro. Lenise a segue e entra no banho com ela.

– Quem é você? Fernanda, você me levou à loucura! Nunca fui tocada desse jeito! Você não deve ser deste mundo.

– Deixe de bobagens, garota!

– Você acredita em amor à primeira vista?

– Não.

– Pois, acredite! Estou completamente apaixonada por você!

Lenise beija a boca de Fernanda e elas fazem amor novamente.

Fernanda leva Lenise para casa.

– Pegue. É o número do meu telefone. Vou esperar você me ligar… Ansiosamente!

Fernanda sai, amassa o papel com o número de telefone e joga fora. Chega ao seu apartamento, se despe e se deita, nua, pegando no sono rapidamente.

– Bom dia, Fernanda! – Diz Norma, seguindo Fernanda, que anda pela empresa. – Sua mãe, sua irmã, doutor Fabrício e a doutora Gislene, telefonaram. Sua mãe quer saber se você vai viajar junto com sua irmã e disse que está morrendo de saudades. Sua irmã quer que você vá com ela escolher o vestido de noiva antes de viajar para a casa de seus pais. Doutor Fabrício disse que os documentos que você pediu já estão prontos, e doutora Gislene, disse que você faltou a 5 sessões e quer falar com você.

– Manoel, por favor, leve os projetos agora mesmo até minha mesa.

– Fernanda, preciso falar com você sobre as obras do Shopping, eles querem…

– Converse comigo quando eu estiver em minha sala.

– Mas eles…

– Você me ouviu, Janaína. Na minha sala.

Fernanda conversa com todos na empresa, fazendo cobranças. Depois se dirige à sua sala. Janaína e Manoel estão à porta, esperando-a.

– Já falo com vocês. Entre Norma, e feche a porta.

Fernanda se senta, abre seu notebook e envia um e.mail.

– Norma, telefone para as pessoas que me ligaram, na ordem dos recados que você me passou.

– Oi, mãe! Estou bem. Não vou viajar com Fabiana, mas estarei no casamento, fique tranquila. Que bobagem! Fabiana quer agradar a amiga, fazendo o vestido de noiva com ela. Sua preocupação é desnecessária! Tanto faz o vestido ser feito no Brasil ou na Europa. Está bem. Ok! Mãe preciso trabalhar, à noite te ligo. Beijo.

Norma faz uma nova ligação.

– Oi, Fabiana! Não prometi que iria com você escolher o vestido? Sempre cumpro minhas promessas. Quando você vai? Ok! Até lá! Beijos.

Outra ligação.

– Se os documentos estão prontos, por que ainda não estão em minha mesa? Até logo, doutor Fabrício.

Última ligação.

– Doutora, você sabe que sou uma mulher muito ocupada e tenho minhas prioridades. Hoje? Às 15 horas? Um momento, eu vou consultar minha agenda. – Fernanda olha para Norma. – Confirmado! Estarei em seu consultório às 15 horas.

A manhã passa rapidamente. Fernanda sai para almoçar e avisa Norma que não voltaria mais. Às 15 horas em ponto, Fernanda chega ao consultório da doutora Gislene.

– Como se sente, Fernanda?

– Muito bem! E você?

Gislene sorri.

– Sei o quanto deve ser desagradável para você ter que vir às consultas, mas é uma ordem judicial e deve ser cumprida.

– Outro dia te perguntei se a mãe da menina também está fazendo terapia. Já tem a resposta?

– Tenho. Ela não está fazendo terapia.

– Está vendo? A mulher é louca e não está em terapia. É ela quem precisa, não eu.

– Você não precisa se zangar comigo, só estou fazendo meu trabalho.

– Ok! Quer falar sobre o que?

– Fale o que quiser falar. Estou aqui para te ouvir.

– Certo. Bom… Na verdade, não tenho nada para falar. Quer perguntar alguma coisa?

– Fale sobre a sua família. Como é o relacionamento de vocês?

– Normal. Papai, mamãe, irmãzinha, futuro cunhado, não temos cachorros, nem gatos, somos ricos, trabalhamos… Enfim! O que mais quer saber?

– Se o bom humor é de família. – Diz a doutora, sorrindo.

– Todos tem um ótimo humor, menos eu. Detesto piadas, não assisto a programas humorísticos, nunca gostei de circo porque o palhaço é sem graça e acho que não temos muito sobre o que falar, não é, doutora?

– Você é casada? Tem filhos?

– Você já leu isso na ficha que preenchi, não foi?

– Foi. Mas gostaria que você falasse. Tem algum problema com isso?

– Problema eu teria se tivesse um marido que ficasse grudado no sofá, em frente à televisão, enquanto eu estivesse cuidando de um bebe chorão.

– Você não tem namorado?

– Não. Nem pretendo ter.

Fernanda olha para o relógio.

– Ainda temos bastante tempo, Fernanda. Fale-me o que você gosta de fazer.

– Trabalhar.

– É a única coisa que te dá prazer? Trabalhar?

– Tem outras coisas que me dão prazer, mas não sei se é conveniente eu falar.

– Experimente!

– Uma coisa que me dá muito prazer, é imaginar uma mulher bonita como você, na cama comigo. Eu tiraria a sua roupa devagar, tocaria seu corpo lentamente e beijaria você, do jeito que nunca foi beijada.

Gislene se mexe na cadeira.

– Imagine minha língua passeando por todo o seu corpo, fazendo-a tremer, gemer, gozar… Isso me dá muito prazer.

Desta vez, quem olha no relógio, é Gislene.

– Acho que podemos terminar esta sessão. Vou marcar para depois de amanhã, no mesmo horário. Está bem pra você?

– Sim. E pra você, doutora?

– Até logo, Fernanda.

Fernanda saí, dando risada.

– Que vaca! – Diz Gislene, irritada, mas sorrindo.

Depois de tomar um banho, Fernanda sai para jantar e vai para a mesma boate que esteve na noite passada. Olha para as lindas mulheres dançando e escolhe uma.

– Boa noite! É impressão minha ou você estava dançando pra mim?

– Fico feliz que tenha notado.

As duas saem da boate, diretamente para um motel.

– Ah, Fernanda! Ai, que gostoso! Mais…Assim…Ah…

Fernanda leva a mulher para casa, pega o número de telefone, amassa o papel e joga fora. Chegando ao seu apartamento, dorme tranquilamente.

– Dona Norma, entregue os documentos para o doutor Fabrício, eles estão assinados sobre minha mesa. Peça para que ele dê entrada ainda hoje.

No dia marcado, Fernanda chega ao consultório da doutora Gislene.

– Boa tarde, doutora!

– Boa tarde, Fernanda! Como você está?

– Muito bem e você?

– Ótima. Fale-me sobre o seu trabalho.

– É sobre isso mesmo que quer que eu fale?

Fernanda sorri.

– É, Fernanda. Parece-me que você gosta muito do que faz.

– Gosto muito. O que vai fazer esta noite?

– O que?!

– Gostaria de sair comigo para jantar?

– Fernanda, você precisa entender que sou sua terapeuta e você está aqui para cumprir…

– Uma ordem judicial. É,eu sei! Mas você janta… Não janta?

– Janto, claro! Mas…

– Então! Posso passar em sua casa para pegá-la às 20 horas.

– Você não está entendendo. Eu não posso sair com você.

– Por que não? Seu marido não deixa você sair com uma amiga para jantar e jogar conversa fora?

– Não sou casada. Mas a questão não é essa. Você é minha paciente! Não podemos…

– Deixo de ser. Você sabe que não tenho problema algum e pode me dar alta. Aí, podemos sair. É só um jantar inofensivo! Que mal há nisso?

Gislene escreve seu endereço em um papel e entrega à Fernanda.

– Estarei pronta às 20 horas.

Fernanda sorri, vitoriosa. No carro, ela fala em voz alta.

– Hoje é você quem será analisada, doutora. – Diz Fernanda, sorrindo.

Às 20 horas em ponto, Fernanda pega Gislene.

– Sempre ouvi falar que este restaurante tem a melhor comida da cidade, mas nunca tive oportunidade de vir.

– Janto aqui todas as noites. Não só a comida é de qualidade, mas o atendimento também.

O garçom chega à mesa e cumprimenta Fernanda, entregando-lhe o cardápio.

– O que vai beber, doutora?

– Um vinho. Deixo à sua escolha.

Fernanda pede o vinho ao garçom, que traz em seguida, servindo-as.

– Vamos brindar.

– Brindaremos a que?

– À nossa nova amizade e à minha alta.

– Ainda não te dei alta.

– Está jantando comigo como minha terapeuta? Você não disse que não poderia fazer isso?

– Posso sim. É uma análise fora do consultório. Quero ver como você se comporta.

– Sei. Tim-Tim!

Enquanto jantam, conversam sobre o que levou Fernanda a ter que fazer terapia e cumprir a ordem judicial.

– O que você faria se visse uma criança sendo espancada em um shopping ou em qualquer outro lugar? Eu não aguentei, tive que fazê-la parar.

– Você poderia ter resolvido isso de outra maneira.

– Como?

– Chamando a segurança do shopping, ligando para a polícia, tentando um diálogo com a mulher.

– Eu tentei. Mas ela me mandou calar a boca e disse que eu não deveria me meter em assuntos familiares. Pedi que ela parasse de bater na menina, que estava chorando, assustada. A mulher continuou gritando com a garotinha e batendo nela. Aí, não me segurei. Dei um empurrão na mulher, ela caiu dentro da fonte, e saiu gritando pelo shopping, dizendo que estava sendo agredida.

– Não havia testemunhas?

– Havia, e muitas! Mas parece que as pessoas tem medo de fazer o que é certo, não querem se envolver. Se elas tivessem dito o que a mulher estava fazendo com a menina, nós não estaríamos aqui jantando. Bom, há males que vem para o bem.

Depois do jantar, no carro, Fernanda tenta beijar Gislene.

– Não, Fernanda.

– Por que não? Você não quer?

– Não é isso. É que… Não está certo.

– O que não está certo, é você e eu querermos este beijo e ele não acontecer.

No motel…

– Nossa! Ai, Fernanda! Isso é tão bom…tão gostoso…tão… Ah…

Uma semana depois, Fernanda está no ateliê com sua irmã, para a escolha do vestido de noiva.

– Adorei esse. O que você acha, Fernanda?

– Você ficou linda com todos os vestidos que experimentou. Você só tem que lembrar de uma coisa.

– Do que?

– Você vai se casar na cidade mais fria do mundo e estes vestidos são para o clima brasileiro. Você vai congelar, irmãzinha.

– Ah, meu Deus! Esqueci desse detalhe!

– Tenha calma, Fabiana! Já sei qual vestido você vai usar. Espere, eu já volto.

A amiga de Fabiana sai. Minutos depois, volta com outro vestido de noiva.

– É este! Amei! O que achou, Fe?

– Linda! Muito linda!

– Você teve sorte, Fabiana! Este vestido foi criado há dois dias e ninguém ainda o tinha visto. Exclusivo para você, minha amiga.

– Sério? E quando posso levá-lo?

– Teremos que fazer alguns ajustes. Amanhã você volta para provar e ficando bom, te entrego em dois dias.

– Perfeito! Você vai ao meu casamento, não vai?

– Vou tentar. Farei o possível para ir.

Depois que saem do ateliê, Fernanda e sua irmã vão se encontrar com Christian, o noivo de Fabiana.

– Como vai, Fernanda?

– Estou bem e você, cunhado?

– Ansioso para casar com sua irmã.

– Oh, que lindo! Te amo, Chris!

O casal se beija, apaixonado.

– Vocês vão fazer o que?

– Vamos para o hotel. Por quê? Vai nos convidar para algum evento?

– Pensei em jantarmos juntos esta noite.

– Ótima ideia, maninha! No restaurante de sempre?

– Sim. Às 20 horas estarei lá, esperando por vocês.

No jantar, Fernanda lhes entregou o presente de casamento. Passagens de avião, e hospedagem, para o Caribe.

– Ah, meu Deus! Eu não acredito! Ah, Fe! Obrigada! – Disse Fabiana, abraçando a irmã.

– Obrigado, Fernanda. Sabia do sonho de Fabiana, mas não poderia dar-lhe esse presente de lua-de-mel.

– Vocês merecem! Quero que sejam muito felizes.

– Nós seremos, Fe! Nós seremos.

Após o jantar, Fernanda leva sua irmã e seu cunhado ao hotel e vai para casa.

No dia seguinte, ela recebe a ligação da doutora Gislene.

– Já falei com o promotor sobre sua alta. Está livre de mim, Fernanda.

– Que bom! Fico feliz!

– Fica feliz em se ver livre de mim?

– Não! Estou falando sobre a alta.

– Ah, fiquei preocupada. Você tem algum compromisso para esta noite?

– Sim. Vou ficar com minha irmã enquanto ela está no Brasil. Na próxima semana ela viaja para Londres e ficaremos algum tempo sem nos ver.

– Que pena. Pensei em repetirmos aquela noite maravilhosa. O jantar, o vinho… E todo o resto.

– Vamos deixar para outra ocasião. Até que minha irmã viaje, estarei com ela todas as noites.

– Está certo. Você tem meu telefone, quando quiser e puder, me ligue. Vou esperar.

Fernanda desliga o telefone e pensa:

“Vai esperando, doutora. Vai esperando!”

Londres – Casamento de Fabiana e Christian

– Parabéns, minha irmã! Desejo a você toda a felicidade do mundo. E se esse cara não te fizer feliz, fale comigo.

– Obrigada, mana! Te amo!

Festa, dança, boa comida, os noivos e suas famílias felizes… E uma linda mulher britânica, na cama, com Fernanda.

De volta ao Brasil, a rotina de Fernanda foi cortada por um convite especial.

– Claro que eu aceito!

– Obrigada, Fernanda! Você não imagina como me deixa feliz. Pensei que você não fosse aceitar ser minha madrinha de casamento.

– Por que pensou isso?

– Porque você não gosta dessas coisas de tradição, clichês.

– Realmente eu não curto isso, mas se é para a felicidade geral da nação… Você sabe que minha irmã se casou, não é? Fui madrinha dela também. Só faço isso por quem eu amo e respeito. Depois de Fabiana e de você, a lista acabou, não serei mais madrinha de ninguém.

– Você deveria se casar também.

– Isso está fora de cogitação. Prezo muito pela minha liberdade.

– Até que apareça a mulher que vai te fazer tremer na base, aquela que vai tirar o seu sono, te deixar nas nuvens e te enlouquecer de paixão!

– Lara, eu amo você. Por que está me rogando praga?

Lara dá gargalhadas.

– Não é praga. É fato! Ninguém consegue viver sem amor, Fernanda!

– E quem te disse que eu vivo sem amor? Eu me amo loucamente, sou completamente apaixonada por mim.

– Você é uma comédia, amiga!

– Diga-me onde e como será esse grande evento.

– Na fazenda, em Itatiaia.

– A fazenda de seu pai? Pensei que ele fosse contra a sua condição sexual e que a tivesse deserdado.

– Realmente ele era contra, mas meu pai faleceu há 3 meses e deixou a herança pra mim. Afinal, eu era a sua única filha.

– E sua mãe? Como ela está?

– Você sabe o quanto minha mãe sofreu por causa das traições de meu pai. Para ela, a morte dele foi uma libertação.

– E o que ela diz sobre você se casar com uma mulher?

– Ela não diz nada. Não sei se aceita ou não, mas estará presente no casamento.

– Vai ser bom rever sua mãe. Gosto muito dela.

– E ela de você. Sempre me pergunta como você está, se já se casou, se tem filhos.

– Diz pra ela que desse mal jamais vou sofrer.

Elas dão gargalhada.

– Fernanda, um dia antes do casamento, um helicóptero virá buscar você e 5 amigos, para levá-los à fazenda. Chegue com 15 minutos de antecedência, está bem?

– Sem problemas. É só me avisar o horário, e onde devo estar para pegar o helicóptero, que estarei lá.

– Obrigada, amiga! Agora preciso ir. Quero comprar algumas coisas para decorar a fazenda e deixá-la linda para o dia mais feliz de minha vida.

As amigas se despedem. À noite, Fernanda vai jantar e quando está saindo do restaurante, alguém a espera.

– Se Maomé não vai a montanha, a montanha vai a Maomé.

– O que está fazendo aqui?

– Vim te ver, já que não me ligou. Sabia que iria encontrá-la aqui. Gosto de pessoas que valorizam a rotina, isso me facilita muito a vida.

– O que quer, doutora?

– Você.

– Olha, aquela noite foi interessante, proveitosa, mas esqueci de te avisar uma coisa… Eu não costumo sair mais de uma vez com uma única mulher.

– É assim que você me trata depois do que eu fiz por você?

– Se você está falando sobre a minha alta, creio que estamos quites. Você me deu o que eu queria, e eu te dei o que você queria.

– Você não tem sensibilidade alguma, é incapaz de perceber o que faz com as pessoas. Você as usa e depois joga fora, como se elas fossem um lixo.

– Está me analisando? Este é o seu diagnóstico? Tudo bem. Faça as suas anotações e me enviei pelo correio. Adeus, doutora. Seja feliz!

Fernanda sai, entra em seu carro e vai para casa. Gislene chora.

Um dia antes de ir para a fazenda de Lara, Fernanda vai à boate e encontra Nina.

– Oi, mulher linda! Como vai?

– Olá! Nos conhecemos?

– Sou a Nina, amiga de Paula. Fomos apresentadas, não se lembra?

– Ah, claro! Desculpe-me.

Elas conversam e alguém se aproxima.

– Oi, meu amor! Fiquei louca te procurando, senti a sua falta. Por que não me telefonou?

– Você é…

– Lenise! Nos conhecemos aqui, fomos para o motel, você me deixou em casa… Não acredito que você não se lembra de mim!

– Lembro! Tudo bem com você?

– Agora que te encontrei, sim, tudo bem. Quem é ela?

– Uma amiga. Nina.

– Oi, Nina! Desculpe, mas você terá que nos dar licença. Fernanda e eu temos muito que conversar.

– Claro! Fiquem à vontade.

– Não. Fica, Nina.

– Amor, preciso muito falar com você a sós.

– Garota… Não temos nada para conversar, ok? Aquela noite foi interessante, proveitosa, mas foi… Acabou.

– Como assim? Do que você está falando?

– Eu que não estou entendendo do que você está falando.

– Estou falando sobre nós! Eu te amo! Foi amor à primeira vista! Desde aquela noite eu não consigo parar de pensar em você…

– Hei! Pode ir parando por aqui. Foi só uma transa. Esquece, ok?

– Só uma transa?! Eu terminei um namoro de 2 anos para ficar com você e é assim que você me trata?

– Terminou porque quis. Aliás, você fez um grande favor para o seu namorado. Ele vai ser mais feliz sem você. Você o traiu, saiu com uma mulher que nunca tinha visto na vida e vem com essa conversa de amor à primeira vista? Me poupe, garota! Nina, vamos sair daqui.

– Claro! Com prazer.

– Não, por favor! Não faz isso comigo, Fernanda. Não…

Fernanda entra em seu carro com Nina.

– Desculpe fazer você passar por esta situação constrangedora.

– Eu até me diverti.

– Quer ir para onde?

– Você manda!

Fernanda dá um sorriso malicioso.

– Ai, que delícia! Você faz tão gostoso, Fernanda! Hmmm… Assim…Isso… Ah…

Fernanda leva Nina de volta à boate, pois, seu carro estava lá.

– Obrigada pela linda noite. Adorei!

Nina abre a sua bolsa.

– Olha, nem adianta me passar o número de seu telefone, porque eu não vou ligar.

Nina tira um batom e passa nos lábios.

– Não vou te dar meu telefone. Boa noite, Fernanda!

Nina entra na boate e Fernanda vai embora.

– Menos uma para me dar problema.

Quinze minutos antes do voo, Fernanda estava no heliporto. Um homem aproximou-se dela.

– Bom dia! O voo vai atrasar um pouco. Se quiser, poderá aguardar no escritório.

– Qual o motivo do atraso?

– A pessoa que vai pilotar está presa no trânsito, mas já está chegando.

– Espero que a falta de responsabilidade com o horário, não interfira na capacidade de seu piloto em conduzir o helicóptero.

– Peço desculpas pelo incômodo. Gostaria de ir ao escritório e tomar um café, enquanto aguarda?

Fernanda aceita o convite e aguarda por 40 minutos. Da janela do escritório, ela vê 5 pessoas chegando ao heliporto.

– Alguma daquelas pessoas é o piloto?

O homem olha pela janela.

– Não.

– Obrigada pelo café.

Fernanda sai do escritório, indo em direção às pessoas que acabaram de chegar, e as cumprimenta.

– Bom dia!

– Bom dia, guria! Pensamos que estávamos atrasados.

– Vocês também estão atrasados.

– Tu vais voar conosco?

– Se o piloto chegar, sim.

– Então fique feliz, porque o piloto chegou.

Fernanda e as 5 pessoas olharam em direção ao escritório e viram uma pessoa vestida com roupas de pilotagem e com um capacete.

– Bom dia! Desculpem-me pelo atraso. Podem se acomodar, pois, já vamos zarpar.

O helicóptero levanta voo rumo à Itatiaia.

No Brasil Colonial, o local era habitado pelos índios Tamoios, Puris e Coroados. Em 1937, sob o governo de Getúlio Vargas, Itatiaia foi fundada como primeiro Parque Nacional Brasileiro. Sua economia já passou pela indústria cafeeira, exploração de carvão e atualmente é baseada no turismo.

Localizada na divisa dos estados do RJ e MG, Itatiaia é um dos poucos destinos onde o visitante encontra montanhas, com ótimos lugares para a prática da escalada em rocha e florestas úmidas, com deliciosas cachoeiras. O Parque é dividido em duas partes: a alta, onde encontramos as montanhas, com destaque para o Pico das Agulhas Negras e a baixa, onde predominam as cachoeiras ideais para banho. Um ótimo roteiro para quem gosta de caminhadas.

A temperatura média anual varia entre 15ºC e 27ºC. No inverno pode variar entre 3ºC a 20ºC e no verão entre 25ºC a 28ºC. Para quem vai para parte alta do Parque recomenda-se a temporada entre abril e setembro. Nessa época do ano o clima é seco, apesar de muito frio (geadas são comuns nesse período). Na parte baixa não existe estação seca. O verão é ideal para os banhos de cachoeira, devido às águas geladas.

Itatiaia-RJ – a 170 km do Rio de Janeiro e a 230 km de São Paulo. (fonte: http://www.google.com)

O helicóptero pousa no lindo gramado da fazenda.

– Com licença, senhor. Quero avisá-lo que farei uma reclamação formal à Compania na qual o senhor trabalha. Além do atraso, sua pilotagem foi de uma total insegurança, que colocou em risco a vida dos passageiros.

O piloto retira o capacete, e lindos cabelos negros e longos, voam ao vento. Fernanda fica surpresa ao ver que o piloto é uma mulher.

– Tem toda razão. Peço desculpas pelo atraso. Entretanto, o voo que a senhora achou inseguro, foi devido aos ventos fortes. Mas chegamos sãos e salvos. A senhora quer me dizer mais alguma coisa?

– Você é uma mulher?!

– Sim! De corpo, alma e cabelos. Tem algum preconceito sobre mulheres que pilotam?

– Não. Tenho conceito formado sobre pessoas que não cumprem horários.

– Está certo. Faça a sua reclamação formal. Para isso, vai precisar de meu nome. Laila Conrado, ao seu dispor. Tenha um lindo dia, senhora!

Laila anda em direção á casa e Fernanda a observa.

– Linda mulher! Só precisa ser domada. E eu, terei um imenso prazer em fazer isso, Laila Conrado.

CONTINUA…

23

OBS: Apenas um nome é real, mas as ocorrências não fazem parte da

realidade. Juliana Farina autorizou usar seu nome.

copyright© – Todos os direitos reservados

Plagio é crime e está previsto. no artigo 184 do código penal.

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SEDUZA-ME

  

Acabo de perder minha mãe. Minha única família! Minha única amiga. Estou sozinha agora.
Meu marido se separou de mim para ficar com uma jovem, que poderia ser minha filha, nossa filha. Mas nem filhos nós tivemos.
Só existe uma coisa que preenche esse espaço vazio em meu coração: meu trabalho.
Dinah, uma colega, sempre tenta me seduzir com viagens exóticas. Constantemente, ela entra em sites de agência de viagens e tem o sonho de fazer um cruzeiro. Sempre me diz:
– Vamos amiga! Será uma viagem inesquecível!
Não sei por que ela me chama de amiga. Não somos amigas, apenas colegas de trabalho.
Uma vez, Dinah não estava em sua mesa, e vi um site aberto em seu computador. A propaganda era sedutora:
“Você, que se sente só, que não tem ninguém, venha viajar conosco em um cruzeiro inesquecível!”
Vi os preços, destino, fotos do navio e isso me chamou a atenção. Peguei o número de telefone que constava no site e telefonei para a agência. Em duas semanas eu estaria de férias. Marquei a viagem e claro, não falei para Dinah. Nada tenho contra ela, ao contrário, até gosto dela, mas estou sozinha e quero continuar sozinha comigo mesma.
E lá estava eu, a bordo de um luxuoso navio. Do Rio para Santos, de Santos para o Rio. Quatro dias e quatro noites.

Primeiro dia:
Almoço com o comandante. Ele em uma mesa com alguns convidados e os passageiros espalhados pelas mesas do grande salão do restaurante.
Primeira noite:
Jantar com o comandante. Idem.

Música ao vivo, de qualidade.
Pessoas rodopiando pelo salão. Alguns homens distintos me convidaram para dançar. Recusei.
Eu, sentada à mesa, depois de dispensar os elegantes cavalheiros, observei que uma mulher morena, com cabelos longos, pretos, lisos, presos com um rabo de cavalo, estava me olhando e… Sorrindo! Quem será? Talvez uma colega da faculdade? Não estou reconhecendo.
Em certo momento, a mulher levantou a taça em um brinde. E continuou sorrindo para mim. Desviei o olhar. Aquele sorriso começava a me incomodar. Mas olhei novamente e lá estava ela… Sorrindo! Pude ver que seus olhos eram verdes.
Levantei-me e fui em direção à minha cabine. Na passagem entre o salão e o corredor que leva às cabines, a mulher sorridente impediu o meu caminho.
– Com licença, por favor.
Falei um tanto irritada. Ela sorriu… De novo!
– Você não me ouviu?
– Ouvi. Por quê?
– Por que o que? Por que peço licença?
– Não. Por que vai embora?
– Porque estou cansada e vou dormir.
– Sozinha?
– Sim. Sozinha.
– Um desperdício!
– O que?
– Bem, pensei em sentarmos, tomarmos uma bebida, conversarmos… Ainda é cedo para dormir. Está uma linda noite!
A mulher tinha um sorriso irônico, mas encantador!
– Olha…
– Por favor! Só uma conversa! Você está sozinha, eu também. Por que não?
Pensei durante algum tempo e ela falou:
– E então? Vamos?
– Não sei. Eu estou cansada e, para falar a verdade, estou sozinha por opção.
Bom, não era bem essa a verdade, mas tudo bem! Ela não me conhecia mesmo!
– Faremos o seguinte, nos sentamos, bebemos, conversamos e se você não gostar, prometo que deixo você ir. O que me diz?
– Está bem. Mas não vamos demorar.
Fomos para o bar.
– O que quer beber? – Perguntou-me.
– Um dry martini.
O barman anotou nossos pedidos e fomos para fora, onde havia mesas e cadeiras.
O céu estava lindo! Estrelas brilhantes e uma lua cheia, branca!
– Concordo. – Disse ela.
– Concorda com o que? Não falei nada!
– Seu olhar e seu sorriso dizem tudo! Você está pensando em como as estrelas e a lua deixam o céu ainda mais bonito. Não é isso?
– Sim! Mas como…
Ela sorriu e falou:
– Ainda não nos apresentamos. Muito prazer, meu nome é Helena.
– É um prazer conhecê-la, Helena. Meu nome é Raquel.
– Raquel! Lindo nome!
O barman nos trouxe as bebidas e sentamo-nos à mesa.
– Diga-me, Raquel! Em que trabalha?
Contei-lhe sobre meu trabalho, sobre a morte de minha mãe, sobre meu ex-marido, e a conversa fluiu leve, descontraída, agradável. Ela me ouvia atenta, e às vezes, soltava aquele sorriso… Lindo!
Depois ela começou a falar sobre sua vida. Helena me pareceu ser uma mulher inteligente, culta.
Tomei um… dois… três martinis. Estava gostando de conversar com Helena. Ela me contou algumas histórias que me fizeram rir. Nossa! Há quanto tempo eu não ria, não sorria! Estava me sentindo bem e… Tonta.
– Helena… Desculpe-me… É… Bem… Estou adorando nossa conversa, mas… Eu…
– Tudo bem, já entendi. Vou te acompanhar até a cabine.
– Não precisa! Eu posso…
Falei, me levantando, e se ela não me segurasse, com certeza, eu iria me estatelar no chão.
Quando ela me segurou, nossos rostos ficaram tão perto, e o olhar dela era tão… tão… Opa! Eu devo estar ficando maluca ou estou mais bêbada do que eu pensava.
Helena me levou até a cabine, abriu a porta, me deitou na cama e ficou me olhando de um jeito que eu não entendia. Ela sorriu, e seu sorriso me fez sentir arrepios. Eu sorri também. Então, ela foi se aproximando devagar, e nossos lábios estavam próximos! Fechei meus olhos, entreabri a boca e… Ela me beijou. Um beijo que me fez tremer, e uma sensação avassaladora tomou conta de meu corpo.
Era claro que eu não estava em meu juízo perfeito… Eu estava me deixando ser beijada por uma mulher! E um beijo tão gostoso!
Entreguei-me por completo. Um desejo enorme tomou conta de mim, e ela sentiu isso.
De repente, me vi nua, e ela sobre meu corpo, tomando, possuindo, invadindo… Ah! Deixei-me levar por esse caminho desconhecido, mas tão delicioso.
Suas mãos me tocavam suavemente, sua boca percorria cada canto de meu corpo e parecia conhecer bem o caminho. Eu gemia a cada toque, a cada beijo, e eu queria mais e mais!
Nossos ruídos de prazer se misturaram ao som do barulho do mar.
Mãos atrevidas, corpos suados, sussurros… Ah! Eu estava entorpecida! Movimentos mágicos, sem censura, sem medo, sem pudor… Simplesmente… Amor!
Adormeci, com o olhar penetrante de Helena.
No dia seguinte, acordei me sentindo leve, feliz! Tomei um banho, me vesti e fui para o restaurante, na esperança de encontrar Helena e tomarmos o nosso café da manhã, juntas.
Helena não estava no restaurante. Pensei que ela ainda pudesse estar dormindo. Tomei o café. Nossa! Há tempos eu não sentia tanta fome!
Andei pelo convés, passando pela piscina, fui até a academia, voltei ao restaurante… Nada de Helena. É… Talvez ela ainda esteja dormindo.
Hora do almoço e Helena não apareceu. Anoiteceu e Helena parecia ter sumido.
Jantar, música, dança e… Uma flor feita de papel colocada em minha mesa. Olhei para ver de quem era aquela mão me ofertando a flor. Era ela! Helena!
Meu coração começou a disparar, fiquei nervosa, não sabia o que dizer. Eu me sentia como uma adolescente tola. A única coisa que consegui dizer foi:
– Onde você se meteu o dia todo?
Ela me deu aquele sorriso torto, sedutor, lindo! E com certeza, eu corei. Eu não tinha outra coisa melhor para falar? Desculpei-me:
– Desculpe-me! Eu…
– Nada a desculpar. – Disse-me, dando um beijo no canto da minha boca. – Já jantou?
– Ainda não. – Falei, tentando disfarçar meus arrepios.
Jantamos, bebemos vinho, dançamos… Com tantos homens no salão, eu preferi dançar com ela. Senti-me envergonhada por dançar com uma mulher, mas com Helena, o tempo parecia parar, as pessoas pareciam não existir, era somente ela e eu.
As horas passaram agradáveis, e eu tentava controlar minha excitação. Sentir Helena tão próxima de mim, me abraçando, me tocando, sentindo sua respiração em meu ouvido, me deixava tonta.
Voltamos à minha cabine e o ritual de prazer se repetiu. Desta vez, não quis me embriagar de vinho, queria me embriagar de Helena.
No dia seguinte, a mesma coisa. Helena sumiu e nos encontramos à noite, no jantar. Eu precisava perguntar. E… Perguntei:
– Você dorme o dia todo?
– Não.
– Desculpe perguntar, mas por que você some? Eu ando por todo o navio e não te acho.
– Você procura por mim? Gostei de saber disso. – Disse, sorrindo.
– Não! Eu apenas fico passeando e… Bem, eu… Não vejo você. Fiquei curiosa em saber como você consegue sumir dentro de um navio.
– Eu não sumo.
– Ah, some sim! Não vai me dizer?
– Não. Ainda não. – Ela dá um sorriso debochado. – Gostaria de ir mais cedo para a sua cabine hoje. – Desta vez, o sorriso foi sedutor, convidativo.
Não pensei duas vezes, fomos naquele mesmo instante para a cabine. A minha cabine.
Paixão, tremores, suores, sussurros e gemidos… Não quero que acabe! Não quero! Eu quero mais! Eu quero para sempre!

Último dia:
Onde estará Helena? Preciso vê-la, preciso tê-la.
Última noite:
De volta ao Rio de Janeiro. De volta para casa. Sem Helena… Sem Helena!

Dias se passaram, eu estava de volta ao meu trabalho. Não sentia vontade de fazer nada, não queria falar com ninguém, não queria nada, apenas… Encontrar Helena.
Três semanas depois, no final da tarde, fim de expediente, eu saí do trabalho e fui para o estacionamento pegar meu carro. Era sexta-feira e teria um feriado prolongado pela frente. Eu estaria sozinha por 4 dias. Quatro longos dias!
Abri a porta do carro e ouvi alguém chamando meu nome.
– Raquel? Senhorita Raquel?
Olhei para ver quem era. Era um homem alto, magro, cabelos grisalhos, com um sorriso simpático nos lábios.
– Com licença. A senhora é Senhorita Raquel?
– Sim, sou eu. E o senhor, quem é?
– Vim buscá-la.
– Veio me buscar? Para ir aonde?
O homem me entregou uma flor feita de papel.
– A pessoa que me mandou buscá-la disse para lhe entregar isso, que a senhora entenderia.
Meu coração disparou, minhas mãos ficaram trêmulas e suadas. De repente, fiquei sem ar.
– A senhora está bem?
– Não! Bem não! Eu estou ótima! Vamos! Leve-me aonde tem que me levar.
Entrei em um carro preto, e o simpático homem me levou até a marina. Desci do carro, e ele me acompanhou até um veleiro. Quando vi a pessoa que me esperava, eu quis gritar, correr, voar!
– Oi!
– Oi!
Entrei no veleiro e nos beijamos. Ah! Esse beijo que me leva às alturas, que me leva ao céu, que me leva ao paraíso!
Encontrei! Encontrei Helena! Na verdade, ela me encontrou.
– Podemos ir senhorita Helena? – Perguntou outro homem, era o capitão.
– Sim, por favor!
Conversamos, e Helena me explicou tudo. Seu sumiço durante o dia era porque ela é chef de cozinha do navio. Demorou a me encontrar, porque saiu em nova viagem. Encontrou-me através das informações que eu mesma lhe fornecera em nossa primeira noite.

Na cama, à meia luz, nossos corpos nus.
Beijos indecentes…
Carícias… Ousadas… Atrevidas…
Estremeço… Entonteço…
Envolvente… Atraente… Irresistivelmente…
– Helena!

FIM

   

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