SÓ FALTAVA O AMOR – PARTE II

Fernanda entra na casa de sua amiga Lara e a cumprimenta. Laila se aproxima.

– Com licença. Lara estou indo para casa. Você ainda precisa de mim?

– Não, Laila! Obrigada! Você virá para o almoço?

– Sim. Só vou tomar um banho e trocar de roupa.

Antes de sair, Laila falou com Fernanda.

– Aproveite agora para fazer a sua reclamação formal para a minha… Compania.

E saiu, rindo.

– Do que ela está falando, Fernanda?

Fernanda conta à Lara sobre o que havia acontecido.

– E você, naturalmente, não perguntou a ela o motivo do atraso.

– Nenhum motivo justifica o atraso. As pessoas precisam aprender a ter mais responsabilidade. Ficamos esperando por mais de uma hora, isso é inadmissível!

– Pois eu vou te dizer o motivo pelo qual Laila se atrasou. Não era pra ela pilotar o helicóptero hoje, ela estava em Cabo Frio, visitando a mãe. O piloto que deveria pilotar sofreu um acidente de carro ontem à noite e a esposa dele só me avisou hoje de manhã. Telefonei para Laila e pedi a ela que pilotasse o helicóptero. Na verdade, Laila me prestou um grande favor.

– O helicóptero é seu?

– Sim. Por quê?

Fernanda riu.

– Qual o motivo do riso?

– É que eu disse a ela que faria uma reclamação formal à Compania na qual ela trabalha. Você é a Compania.

Lara gargalhou.

– Fique sabendo que não vou punir minha pilota.

Fernanda recebe uma ligação em seu celular, era da empresa. Depois vai para o quarto. Lara conversa com as 5 pessoas que vieram no helicóptero.

– Bom dia! Os instrumentos de vocês chegaram ontem à noite. Estão inteiros, não se preocupem.

– Obrigada, Lara. Você sabe me dizer se o técnico de som virá hoje? Não queremos deixar tudo para a última hora.

– Ele vai almoçar conosco.

– Que bom! Obrigada.

– Vocês podem ir para os quartos quando quiserem. Fiquem à vontade!

Após o almoço, todos foram para o jardim, onde os músicos passavam o som. Laila se aproximou de Fernanda.

– E então? O que a minha Compania decidiu? Serei demitida? – Laila tinha um sorriso debochado.

– Não será demitida. Sua Compania justificou o seu atraso.

– Hmmm. Então me deve um pedido de desculpas.

– Por quê?

– Porque a senhora foi indelicada comigo. Nem quis saber o motivo do atraso.

– Você poderia ter dito.

– A senhora não me perguntou. Estou esperando.

– Esperando o que?

– Seu pedido de desculpas. É o mínimo que pode fazer depois de me tratar com tanta indelicadeza.

– Ok. Desculpe-me.

– Desculpas aceitas. Dá próxima vez, tente ser mais compreensiva e menos arrogante.

Laila saiu, antes que Fernanda pudesse dizer alguma coisa.

Fernanda voltou para o quarto, tomou banho e desceu para o jantar.

– Você está se sentindo bem, Fernanda?

– Estou ótima, Lara! Por que pergunta?

– Você passou a tarde toda no quarto. Aconteceu alguma coisa?

– Eu estou bem, não se preocupe. Quis descansar, ler um livro, só isso.

– Se precisar de alguma coisa, me avise, está bem?

– Aviso sim. Obrigada. Onde está sua noiva?

– Ela virá amanhã. É médica e está de plantão esta noite.

Fernanda olha para Laila, que está dando gargalhadas.

– Sua amiga parece estar muito feliz.

– Minha amiga é feliz! Está sempre de bom humor, rindo, contando histórias engraçadas.

– Como a conheceu?

– Os pais dela trabalharam para o meu pai durante anos. O pai faleceu há alguns anos e a mãe, depois que se aposentou, comprou uma casa em Cabo Frio e se mudou pra lá, para ficar perto da família.

– Vocês se conhecem desde crianças?

– Sim. Sempre fomos amigas. Senti muito a falta dela quando meu pai me obrigou a morar nos Estados Unidos.

– Espera… Foi por causa dela que…

– Sim. Laila foi a minha primeira namorada.

A conversa entre Fernanda e Lara é interrompida por Laila.

– Lara, a galera e eu estávamos conversando, e pensamos que seria legal se a banda tocasse umas músicas pra nós. Você deixa?

– Excelente ideia!

– Valeu Larinha!

Depois do jantar, todos foram para o jardim e a banda começou a tocar.

– A banda é muito boa, Lara!

– Demais! Quando vi a banda tocar em um bar no Rio, me apaixonei! Foi quando surgiu a ideia de contratá-la para tocar no casamento.

– A vocalista é linda, simpática e talentosa. Quem é ela?

– Juliana Farina. Ela é uma graça. E canta muito! Vamos lá dançar Fernanda!

Juliana Farina começa a cantar “Nem um dia” de Djavan. Fernanda convida Laila para dançar e ela aceita.

Ao encostar no corpo de Laila, Fernanda sente arrepios. Laila estremece. Elas se olham e ficam assim durante toda a música.

Quando a música termina, elas se afastam, sem nada dizer.

Na manhã do dia do casamento, Isadora, noiva de Lara, chega à fazenda. Lara a apresenta para o pessoal da banda e para Fernanda.

– Você é a mulher que vai se casar com minha amiga?

– Eu mesma, Nanda! Cara, quanto tempo!

Fernanda e Isadora se abraçam.

– Vocês se conhecem?

– De longa data, não é Nanda?

– E de muitas baladas. Espero que você tenha tomado juízo, não vou permitir que você faça minha amiga infeliz.

– Calma! Eu mudei! Não sou mais a mesma mulher que você conheceu.

– Do que vocês estão falando?

– Sua noiva era a maior “pegadora” da noite. Sempre mantinha uma namorada no banco de reservas, mas nunca se contentou com apenas uma.

– Isso você nunca me contou, Isadora.

– Águas passadas, meu amor. Nanda fala de mim, mas ela também era “pegadora”. Era ou ainda é?

– Não tenho namorada, não estou casada e nem pretendo. Isso responde à sua pergunta, Isadora?

– Responde sim. Pobres mulheres!

Todos tomam o farto café da manhã e começam os preparativos para a festa.

Em uma cerimônia simples, uma juíza confirma a união entre Lara e Isadora.

A festa é animada por Juliana Farina e Banda. No intervalo, Laila e algumas pessoas conversam com ela.

– Menina, você canta demais! Que voz é essa?

– Obrigada.

– Não entendo porque você ainda não está na mídia, se apresentando nos programas de televisão e fazendo shows por todo o Brasil.

– Isso é complicado!

– Complicado? Complicado é ver um monte de mulheres quase nuas descendo até o chão e com nomes de frutas, fazendo sucesso. Complicado é ter que ouvir letras pobres e repetitivas, e as pessoas dizerem que é música. Isso é complicado.

– É verdade. Você deveria estar mostrando o seu talento para o mundo, Juliana!

– Obrigada! Vocês são gentis.

– Não estou sendo gentil. Estou sendo realista.

– Estou trabalhando para isso. Quem sabe? Muito obrigada.

Juliana Farina se serve, e senta à mesa para jantar com os integrantes da banda.

A cantora gaúcha Juliana Farina, começou a cantar profissionalmente na noite da cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul aos 14 anos. Aos 24, após completar sua graduação em Fonoaudiologia, se mudou para Campinas-SP, apenas com uma mochila nas costas e a vontade de cantar. Após 5 anos de luta e se apresentando em programas de TV e palcos do interior paulista, se mudou para o Rio de Janeiro, tentando assim, divulgar seu trabalho.

Cantora de timbre grave e único lança o seu primeiro CD “Paradoxal”, com músicas autorais em parceria com o compositor pernambucano Fernando Ben.

Se não bastasse ser uma excelente cantora com uma voz belíssima, Juliana é um doce de pessoa.

Fontes: http://ahmed-musica.blogspot.com/2010/03/juliana-farina.html http://julianafarina.com/imprensa

A banda volta ao palco, e Juliana começa a cantar músicas de seu CD. Uma das músicas é “Despir”.

Fernanda se aproxima de Laila.

– Quer dançar comigo, pilota?

– Por que não, senhora?

Embaladas pela música, elas se tocam, e se olham, e se sentem… Embriagadas pelo vinho, pela linda noite e pela linda música… Elas se beijam. Parecendo ter o mesmo pensamento, Fernanda e Laila se afastam.

Fernanda se senta à mesa com a mãe de Lara e elas conversam durante algum tempo.

A festa se embrenhou pela madrugada. Aos poucos, os convidados foram se retirando. Alguns se hospedaram na casa da fazenda, outros voltaram para seus hotéis.

No dia seguinte, Laila leva seus passageiros para o Rio.

– Foi um grande prazer conhecer vocês. – Diz Laila, abraçando Juliana e os integrantes da Banda.

Juliana Farina entrega à Laila um cartão.

– Se quiser nos contratar para tocar em seu casamento, aniversário ou simplesmente em um encontro de amigos, é só telefonar. Vá nos ver tocando no bar.

– No bar eu vou. Mas contratar vocês para o meu casamento, só na próxima encarnação. – Responde Laila, arrancando risadas da banda.

– Seu nome é Fernanda, não é? – Diz Juliana, também lhe entregando o cartão. – Espero reencontrá-las no bar. Tchau, gurias!

Juliana e a banda entram no carro e vão embora.

– Podemos combinar de irmos juntas ao bar. O que acha, pilota?

– Adoro surpresas, improvisos, imprevistos! Se o destino quiser que nos encontremos de novo, acredite! Vamos nos encontrar. Até logo, senhora!

Laila entra no escritório. Depois pega o seu carro e sai, sem olhar para trás.

– Vou baixar sua crista, pilota. Ah, vou!

No final de semana seguinte, Fernanda vai ao bar ver Juliana Farina e Banda.

– Que bom vê-la aqui, Fernanda!

– Resolvi aceitar o seu convite. Não conhecia este bar.

– Gostou?

– Gostei. Bonito, aconchegante e tem lindas mulheres!

Juliana ri.

– É verdade! Com licença, Fernanda. Agora vou trabalhar.

Juliana Farina e Banda começam a tocar.

Fernanda aprecia as músicas. Juliana começa a cantar “Despir” e Fernanda se lembra de Laila.

“Não foi hoje, pilota. Mas eu vou encontrar você”.

Uma mulher se aproxima da mesa onde está Fernanda, interrompendo seus pensamentos.

– Boa noite! Está sozinha?

– Não mais. Você está aqui.

A mulher se senta e elas conversam. Uma hora depois, Fernanda e a mulher vão embora.

– Que loucura! Mais… Mais! Assim… Ah, Fernanda, que delícia!

Duas semanas se passaram. Fernanda estava na empresa, quando recebeu uma ligação.

– Fernanda Oedam?

– Sim. Quem é?

– Nina, amiga de Paula. Está lembrada de mim?

– Como conseguiu meu telefone?

– Nina me deu.

– Estou trabalhando, por isso, seja breve. O que quer?

– Conversar com você. Podemos jantar esta noite?

– Creio que não temos nada para conversar.

– Preciso de ajuda Fernanda, e sei que você pode me ajudar.

– Se for alguma brincadeira de mau gosto…

– Não é, acredite.

– Está bem. Anote um endereço.

No restaurante, Nina chega.

– Boa noite. Obrigada por me receber.

Enquanto jantam, elas conversam.

– Gostaria de te pedir para não brigar com Paula. Eu insisti para que ela me desse seu telefone.

– Diga o que quer.

– Estou com sérios problemas financeiros. Comprei uma casa financiada, meu carro está alienado, meu pai faz tratamento para Alzheimer e fui demitida há três semanas. Já enviei meu currículo para várias empresas, mas está difícil.

– No que eu posso te ajudar?

– Me arrumando um emprego.

– Você faz o que?

– Sou formada em Economia, mas aceito qualquer coisa. Por favor, Fernanda, me ajude. Estou entrando em desespero.

– Passe amanhã na construtora e leve seu currículo.

– Obrigada!

Nina foi contratada para trabalhar no departamento financeiro, no lugar de Camila, a garota que fora demitida por Fernanda.

Fernanda bate à porta de uma pequena casa.

– Pois não!

– Oi. Acho que errei de casa.

– Quem a senhora está procurando?

– Laila Conrado.

– É aqui mesmo. Espera, vou chamá-la.

Uma menina, aparentando 5 anos, fecha a porta na cara de Fernanda. Em seguida, Laila aparece.

– Ora, ora! A que devo essa visita?

– Não vai me convidar para entrar?

– À vontade!

Fernanda entra e se senta em um sofá.

– Claro que a senhora pode se sentar! Deseja beber alguma coisa?

– Não, obrigada.

– Diga-me! Qual o motivo de sua visita?

– Esperei que o destino fizesse a parte dele, e como não fez, resolvi tomar o destino em minhas mãos.

– É sua especialidade?

– O que?

– Ter tudo em suas mãos?

Fernanda sorri.

– Para falar a verdade, não acredito em destino. O meu destino sou eu que faço.

– Você ainda não disse por que veio.

– Vim convidá-la para jantar comigo.

– Hoje?!

– Sim. Ou outra noite, se preferir. Estarei em Itatiaia a trabalho por uns 4 dias, você pode escolher quando e onde vai jantar comigo.

– Isso, pensando na possibilidade de eu aceitar o seu convite.

– Não vai aceitar?

– Podemos mudar isso. Ao invés de eu ir jantar com você, você janta comigo.

A menina aparece na sala.

– Minha mãe é a melhor cozinheira que existe.

– Mãe?!

– Bianca, você estava ouvindo atrás da porta de novo?

– Não estava ouvindo atrás da porta, estava no corredor e a porta está aberta.

– Esta é Bianca, minha filha.

– “A gente já se conhecemos”…

– Bianca!

– Nós já nos conhecemos. Eu abri a porta pra ela, lembra?

– É um prazer conhecê-la, Bianca.

A menina estende a mão para Fernanda, cumprimentando-a.

– Você é namorada da minha mãe?

Fernanda olha para Laila, sem saber o que dizer.

– Não, Bianca. Ela é uma amiga. Vai tomar banho, depois te chamo para me ajudar com o jantar.

– Tá bom.

– Desculpe. Bianca é madura pra idade dela e adora participar das conversas.

– Onde está o pai dela?

– Não faço a mínima ideia.

– Ele as abandonou? Deixou você cuidando sozinha da criança?

– Bianca é fruto de inseminação artificial. Ela não tem um pai, ela tem um reprodutor.

– Optou por isso sendo tão jovem! Por quê?

– Porque eu sempre quis ser mãe, então, por que esperar? Você não respondeu se aceita jantar conosco.

– Se não for incômodo.

– Vamos para a cozinha. Você me ajuda com os temperos.

Laila coloca sobre a pia uma tábua, cebola, alho e cheiro verde.

– Enquanto você faz isso, vou lavar o arroz e cortar a carne.

Fernanda fica olhando para a cebola que está em sua mão.

– Você não tem ideia de como se faz isso, não é?

– Não. Eu nunca descasquei cebola em toda a minha vida.

– Como dizem, há sempre uma primeira vez para tudo. Eu te ensino.

Fernanda cortava a cebola e chorava. Laila ria.

– Você está se saindo muito bem, Fernanda. Vou chamar Bianca para nos ajudar.

– Oi, Fernanda!

– Oi.

– “Judiera”! Ela está chorando, mãe.

A menina abre a porta de um armário e pega um aparelho manual.

– Toma, Fernanda, use isso. Assim, você não chora mais. Acho que mamãe se esqueceu de lhe dar.

Fernanda olha para Laila com raiva. Laila sorri.

Arroz branco, carne assada, salada de alface, tomate, pepino e cebola, batatas fritas e suco natural de laranja.

– Estou aprovada como Chef?

– Sim. Mas a cebola fez toda a diferença.

O jantar foi agradável. Laila lavava a louça, enquanto Fernanda e Bianca estavam na sala.

– E este desenho é minha mãe com tia Augusta.

No desenho, tia Augusta estava com a mão levantada e Laila, com as mãos no rosto e a cabeça abaixada.

– Ela é irmã de sua mãe?

– “Dãr”! Minha mãe é filha única. Tia Augusta era namorada de mamãe. Mas ela foi embora, porque eu atrapalhava o namoro delas.

Laila entra na sala.

– Chega de conversa, mocinha. Está na hora de ir pra cama.

– Ah, mãe! Só mais um pouquinho. Estou mostrando meus desenhos para Fernanda.

– Você tem que acordar cedo. Esqueceu que vamos para a casa da vovó?

– Tá bom. Boa noite, Fernanda. Você vai voltar aqui?

– Se sua mãe me convidar, eu volto.

Laila coloca Bianca na cama e volta para a sala.

– Você conversa sobre qualquer assunto com sua filha?

– Sim. Acho que ela deve saber sobre a realidade da vida desde cedo, para que não se torne uma garota iludida, achando que o mundo é um reino encantado.

– Ela tem quantos anos?

– Seis anos. Mas como você já percebeu, ela é esperta. Nem que eu quisesse, conseguiria esconder alguma coisa dela.

– Quer falar sobre a tia Augusta?

– Ela é uma desgraçada, sem escrúpulos. Quase acabou com a minha vida. Tem certeza que quer que eu fale dela?

– Fale-me sobre este desenho.

Laila olha o desenho e seus olhos se enchem de lágrimas.

– Conheci essa mulher quando Bianca tinha 2 anos. Fomos morar com ela no Rio. No começo, eu pensei que havia encontrado a melhor mulher do mundo, mas em pouco tempo ela começou a mostrar a víbora que era. Augusta era 10 anos mais velha que eu, e tinha muito ciúmes de mim, até com Bianca. Numa noite, ela chegou em casa e disse que iríamos a uma festa, aniversário de uma amiga dela. Eu falei que ela poderia ir, pois, não teria com quem deixar Bianca. Ela se enfureceu e gritava que eu só pensava na menina, que eu queria ficar em casa sozinha para receber alguma mulher, que eu a estava traindo… Aquela noite foi um inferno. Ela me bateu e Bianca viu tudo. Tentei ir embora naquela noite mesmo, mas ela não deixou. E me ameaçou, dizendo que se eu fosse embora, ela me encontraria em qualquer lugar do mundo e me mataria.

– Por que você não chamou a polícia?

– Como? Ela estava me batendo! No dia seguinte, ela saiu para trabalhar. Arrancou os aparelhos de telefone das paredes e levou meu celular, me deixando trancada na casa. Eu estava muito machucada. Bianca entrou no quarto e me viu. Com um olhar doce, ela me disse: “Mamãe, não chore, eu vou cuidar de você”. Foi aí que criei forças e resolvi fugir. Quebrei a janela e saímos. Eu estava sem dinheiro, sem documentos, Augusta tinha levado tudo. Entrei em um táxi e fomos para a casa de minha mãe, em Cabo Frio. Chegando lá, minha mãe pagou o taxista.

– Augusta foi atrás de você?

– Foi. Ela tentou invadir a casa, mas chamamos a polícia. Ela não foi presa, claro! Mas meu tio era policial e fez com que ela não se aproximasse mais de mim.

– Ela nunca mais te procurou?

– Procurou. Telefonava todos os dias para minha mãe, e fazia ameaças. Ela acabou desistindo, porque meu tio prometeu que se ela não me deixasse em paz, ele iria providenciar para que ela passasse o resto da vida na cadeia. Três

meses depois, Augusta foi presa por assassinar uma mulher com quem estava morando.

– Ela continua presa?

– Graças a Deus, sim. Chega de falar de coisas tristes. Fale-me sobre seu trabalho aqui em Itatiaia. Algum novo empreendimento?

– Minha construtora ganhou uma licitação para a construção de um condomínio de luxo.

Elas tomavam vinho, enquanto conversavam.

– Nossa! Nem vi a hora passar. Desculpe.

– Foi uma noite agradável.

– Amanhã é a minha vez de pagar o jantar para você e para Bianca.

– Bianca não estará aqui amanhã. Vai passar o fim de semana com minha mãe.

– E você? Vai passar o fim de semana com elas?

– Eu não. Volto para casa amanhã à tarde.

– Então está combinado! Amanhã o jantar é por minha conta.

– Certo!

Fernanda se levanta e vai para a porta.

– Obrigada pelo jantar.

– Obrigada por cortar a cebola.

Laila dá um sorriso debochado.

– Vou te dar o troco. Aguarde!

Quando Fernanda sai, Laila fica olhando até ver seu carro desaparecer na estrada.

“Se pensa que vou pra cama com você, senhora Fernanda, vai tirando o cavalinho da chuva”.

Ela entra, tira as taças e a garrafa de vinho da sala, leva para a cozinha e vai se deitar.

Fernanda chega ao hotel, toma banho, se deita e começa a ler um livro, mas não consegue se concentrar.

“A ida de Bianca para a casa da avó foi providencial. A sós com você, pilota, você será a minha sobremesa”.

CONTINUA…

“Qualquer semelhança com nomes e acontecimentos, terá sido mera coincidência. Não são fatos reais”.

OBS: Apenas um nome é real, mas as ocorrências não fazem parte da realidade. Juliana Farina autorizou usar seu nome.

copyright© – Todos os direitos reservados

Plagio é crime e está previsto. no artigo 184 do código penal.

SÓ FALTAVA O AMOR – PARTE I

“Tinha dinheiro, trabalho, cargo, sucesso, mulheres, viagens, sexo, gastronomia… Tinha tudo! Mas…

– Você não pode me demitir!

– Posso sim! Vá até o Departamento de Pessoal para acertar suas contas. E espero não ter que ver a sua cara nunca mais.

– Isso não é justo! Fernanda, por favor…

– Adeus!

Fernanda Oedam é uma empresária de sucesso. Rígida e competente, não suporta pessoas que não correspondam às suas expectativas.

Com a aposentadoria de seu pai, Fernanda herdou a Construtora Oedam, uma das mais importantes do País, e há 2 anos, administra magistralmente, com pulso firme.

– Com licença, Fernanda.

– Entre, dona Norma.

Norma é secretária da empresa há 15 anos. Pessoa de confiança do pai de Fernanda, e agora, dela.

– O que houve com Camila? Ela saiu soltando fumaça pelas ventas.

– Eu a demiti.

– Demitiu?! Por quê?

– Porque ela é incompetente. E não suporto pessoas que misturam a vida pessoal com a profissional. A senhora trouxe os relatórios que pedi?

– Sim. Estão todos revisados, só falta você assinar.

Fernanda pega a pasta das mãos de Norma.

– Depois que eu ler tudo e constatar que está como pedi, eu te chamo. Obrigada.

Norma entendeu o recado e saiu da sala.

Depois de um dia cheio, Fernanda vai para o seu duplex, em um dos prédios construídos pela Construtora Oedam.

Toma banho, se veste, e sai para jantar em seu restaurante preferido. Bebe uma taça de vinho, enquanto aguarda sua amiga.

Uma linda mulher, com cabelos longos e castanhos, chega ao restaurante. Dá um beijo em Fernanda e se senta. Fernanda olha para o relógio.

– Ah, não, Fernanda! Sem neurose, por favor.

– Você está atrasada 40 minutos. Eu já estava desistindo de te esperar.

– Cheguei! Pronto! Você já pediu?

– Ainda não.

Elas olham o cardápio e fazem os pedidos. Depois de jantarem, elas saem em direção a uma boate.

– Fernanda, nem sei como te agradecer por me acompanhar a esta festa. Não conseguiria ir sozinha.

– Não se preocupe! Você fica me devendo.

Ao entrarem na boate, elas se dirigem a uma mesa, onde estão várias mulheres.

– Paula?! Eu não acredito que você veio!

– Nem eu, Nina! Nem eu.

As amigas se cumprimentam.

– Você não vai me apresentar à sua amiga?

– Ah, claro!

Paula apresenta Nina para Fernanda.

– Nina, elas já chegaram?

– Sim. Estão na pista de dança. Tem certeza que você quer ver isso? Digo… As duas juntas?

– Tenho. Preciso ver para tentar esquecer.

– Tudo bem. É você quem sabe.

Em seguida, duas mulheres chegam à mesa. Uma delas cumprimenta Paula.

– Oi, Paula. Como você está?

– Apesar das circunstâncias, estou bem. E você, Cláudia?

– Bem também. Paula, eu gostaria de te pedir um favor.

– Não precisa se preocupar. Não darei escândalos.

– Obrigada.

Paula e Cláudia namoraram durante 3 anos e pensavam em morar juntas. Até que Eliana apareceu e as separou.

Cláudia se senta ao lado de sua atual namorada. Eliana parecia fazer de tudo para provocar Paula.

– Amiga, finja que não está vendo.

– Ai que vontade eu tenho de matar essa garota.

– Mas é exatamente isso o que ela quer. Que você perca o controle e desça do salto. Paula, não dê esse gostinho a ela. Você é superior a isso.

– Obrigada, Nina. Onde está Fernanda?

– Não sei. Deve ter ido ao banheiro. Aliás, você e ela…

– Não! Fernanda é minha amiga há anos.

– Ela é solteira?

– Solteiríssima! Mas esquece, Nina! Fernanda não se apega a ninguém, só pega.

– Isso porque ela ainda não provou a doce Nina.

– Ok! Depois não diga que eu não avisei.

Do outro lado da boate, Fernanda conversa com uma mulher.

– Estamos conversando há alguns minutos e eu ainda não sei o seu nome.

– Lenise. E o seu?

– Fernanda. Você está sozinha ou acompanhada?

– Estou com meu namorado. A irmã dele é homossexual e está comemorando o aniversário aqui, por isso eu vim.

– Entendo. Então, aquele olhar, a insinuação… Foi imaginação minha?

– Não. – Respondeu a garota, com um sorriso tímido.

– Quer ir para um lugar mais calmo?

– Agora?!

– Sim! Agora!

Lenise procura o namorado.

– Amor, preciso ir embora. Menstruei e não tenho absorvente aqui.

– Caramba, Lenise! Como pôde deixar isso acontecer?

– Não tenho culpa! Adiantou! O que eu posso fazer?

– Minha irmã vai ficar furiosa se eu sair agora.

– Você não precisa ir, pego um táxi.

– Tem certeza? Se quiser…

– Não precisa. Quando eu chegar em casa, eu te ligo.

Enquanto isso, Fernanda se despede de Paula.

– Poxa, Fe! Você prometeu ficar comigo!

– Não. Eu prometi que traria você. Já trouxe, agora vou embora. Sua amiga te faz companhia.

– Fica, Fernanda! Nem tivemos tempo para conversar! – Diz, Nina.

– Preciso ir. Tchau.

Fernanda beija o rosto de Paula e vai embora com Lenise.

– Ai, Fernanda! Que delícia! Ah…

Fernanda e Lenise estão em um motel. Lenise delira com os toques e beijos de Fernanda em seu corpo. Depois de saciadas, Fernanda se levanta e vai para o chuveiro. Lenise a segue e entra no banho com ela.

– Quem é você? Fernanda, você me levou à loucura! Nunca fui tocada desse jeito! Você não deve ser deste mundo.

– Deixe de bobagens, garota!

– Você acredita em amor à primeira vista?

– Não.

– Pois, acredite! Estou completamente apaixonada por você!

Lenise beija a boca de Fernanda e elas fazem amor novamente.

Fernanda leva Lenise para casa.

– Pegue. É o número do meu telefone. Vou esperar você me ligar… Ansiosamente!

Fernanda sai, amassa o papel com o número de telefone e joga fora. Chega ao seu apartamento, se despe e se deita, nua, pegando no sono rapidamente.

– Bom dia, Fernanda! – Diz Norma, seguindo Fernanda, que anda pela empresa. – Sua mãe, sua irmã, doutor Fabrício e a doutora Gislene, telefonaram. Sua mãe quer saber se você vai viajar junto com sua irmã e disse que está morrendo de saudades. Sua irmã quer que você vá com ela escolher o vestido de noiva antes de viajar para a casa de seus pais. Doutor Fabrício disse que os documentos que você pediu já estão prontos, e doutora Gislene, disse que você faltou a 5 sessões e quer falar com você.

– Manoel, por favor, leve os projetos agora mesmo até minha mesa.

– Fernanda, preciso falar com você sobre as obras do Shopping, eles querem…

– Converse comigo quando eu estiver em minha sala.

– Mas eles…

– Você me ouviu, Janaína. Na minha sala.

Fernanda conversa com todos na empresa, fazendo cobranças. Depois se dirige à sua sala. Janaína e Manoel estão à porta, esperando-a.

– Já falo com vocês. Entre Norma, e feche a porta.

Fernanda se senta, abre seu notebook e envia um e.mail.

– Norma, telefone para as pessoas que me ligaram, na ordem dos recados que você me passou.

– Oi, mãe! Estou bem. Não vou viajar com Fabiana, mas estarei no casamento, fique tranquila. Que bobagem! Fabiana quer agradar a amiga, fazendo o vestido de noiva com ela. Sua preocupação é desnecessária! Tanto faz o vestido ser feito no Brasil ou na Europa. Está bem. Ok! Mãe preciso trabalhar, à noite te ligo. Beijo.

Norma faz uma nova ligação.

– Oi, Fabiana! Não prometi que iria com você escolher o vestido? Sempre cumpro minhas promessas. Quando você vai? Ok! Até lá! Beijos.

Outra ligação.

– Se os documentos estão prontos, por que ainda não estão em minha mesa? Até logo, doutor Fabrício.

Última ligação.

– Doutora, você sabe que sou uma mulher muito ocupada e tenho minhas prioridades. Hoje? Às 15 horas? Um momento, eu vou consultar minha agenda. – Fernanda olha para Norma. – Confirmado! Estarei em seu consultório às 15 horas.

A manhã passa rapidamente. Fernanda sai para almoçar e avisa Norma que não voltaria mais. Às 15 horas em ponto, Fernanda chega ao consultório da doutora Gislene.

– Como se sente, Fernanda?

– Muito bem! E você?

Gislene sorri.

– Sei o quanto deve ser desagradável para você ter que vir às consultas, mas é uma ordem judicial e deve ser cumprida.

– Outro dia te perguntei se a mãe da menina também está fazendo terapia. Já tem a resposta?

– Tenho. Ela não está fazendo terapia.

– Está vendo? A mulher é louca e não está em terapia. É ela quem precisa, não eu.

– Você não precisa se zangar comigo, só estou fazendo meu trabalho.

– Ok! Quer falar sobre o que?

– Fale o que quiser falar. Estou aqui para te ouvir.

– Certo. Bom… Na verdade, não tenho nada para falar. Quer perguntar alguma coisa?

– Fale sobre a sua família. Como é o relacionamento de vocês?

– Normal. Papai, mamãe, irmãzinha, futuro cunhado, não temos cachorros, nem gatos, somos ricos, trabalhamos… Enfim! O que mais quer saber?

– Se o bom humor é de família. – Diz a doutora, sorrindo.

– Todos tem um ótimo humor, menos eu. Detesto piadas, não assisto a programas humorísticos, nunca gostei de circo porque o palhaço é sem graça e acho que não temos muito sobre o que falar, não é, doutora?

– Você é casada? Tem filhos?

– Você já leu isso na ficha que preenchi, não foi?

– Foi. Mas gostaria que você falasse. Tem algum problema com isso?

– Problema eu teria se tivesse um marido que ficasse grudado no sofá, em frente à televisão, enquanto eu estivesse cuidando de um bebe chorão.

– Você não tem namorado?

– Não. Nem pretendo ter.

Fernanda olha para o relógio.

– Ainda temos bastante tempo, Fernanda. Fale-me o que você gosta de fazer.

– Trabalhar.

– É a única coisa que te dá prazer? Trabalhar?

– Tem outras coisas que me dão prazer, mas não sei se é conveniente eu falar.

– Experimente!

– Uma coisa que me dá muito prazer, é imaginar uma mulher bonita como você, na cama comigo. Eu tiraria a sua roupa devagar, tocaria seu corpo lentamente e beijaria você, do jeito que nunca foi beijada.

Gislene se mexe na cadeira.

– Imagine minha língua passeando por todo o seu corpo, fazendo-a tremer, gemer, gozar… Isso me dá muito prazer.

Desta vez, quem olha no relógio, é Gislene.

– Acho que podemos terminar esta sessão. Vou marcar para depois de amanhã, no mesmo horário. Está bem pra você?

– Sim. E pra você, doutora?

– Até logo, Fernanda.

Fernanda saí, dando risada.

– Que vaca! – Diz Gislene, irritada, mas sorrindo.

Depois de tomar um banho, Fernanda sai para jantar e vai para a mesma boate que esteve na noite passada. Olha para as lindas mulheres dançando e escolhe uma.

– Boa noite! É impressão minha ou você estava dançando pra mim?

– Fico feliz que tenha notado.

As duas saem da boate, diretamente para um motel.

– Ah, Fernanda! Ai, que gostoso! Mais…Assim…Ah…

Fernanda leva a mulher para casa, pega o número de telefone, amassa o papel e joga fora. Chegando ao seu apartamento, dorme tranquilamente.

– Dona Norma, entregue os documentos para o doutor Fabrício, eles estão assinados sobre minha mesa. Peça para que ele dê entrada ainda hoje.

No dia marcado, Fernanda chega ao consultório da doutora Gislene.

– Boa tarde, doutora!

– Boa tarde, Fernanda! Como você está?

– Muito bem e você?

– Ótima. Fale-me sobre o seu trabalho.

– É sobre isso mesmo que quer que eu fale?

Fernanda sorri.

– É, Fernanda. Parece-me que você gosta muito do que faz.

– Gosto muito. O que vai fazer esta noite?

– O que?!

– Gostaria de sair comigo para jantar?

– Fernanda, você precisa entender que sou sua terapeuta e você está aqui para cumprir…

– Uma ordem judicial. É,eu sei! Mas você janta… Não janta?

– Janto, claro! Mas…

– Então! Posso passar em sua casa para pegá-la às 20 horas.

– Você não está entendendo. Eu não posso sair com você.

– Por que não? Seu marido não deixa você sair com uma amiga para jantar e jogar conversa fora?

– Não sou casada. Mas a questão não é essa. Você é minha paciente! Não podemos…

– Deixo de ser. Você sabe que não tenho problema algum e pode me dar alta. Aí, podemos sair. É só um jantar inofensivo! Que mal há nisso?

Gislene escreve seu endereço em um papel e entrega à Fernanda.

– Estarei pronta às 20 horas.

Fernanda sorri, vitoriosa. No carro, ela fala em voz alta.

– Hoje é você quem será analisada, doutora. – Diz Fernanda, sorrindo.

Às 20 horas em ponto, Fernanda pega Gislene.

– Sempre ouvi falar que este restaurante tem a melhor comida da cidade, mas nunca tive oportunidade de vir.

– Janto aqui todas as noites. Não só a comida é de qualidade, mas o atendimento também.

O garçom chega à mesa e cumprimenta Fernanda, entregando-lhe o cardápio.

– O que vai beber, doutora?

– Um vinho. Deixo à sua escolha.

Fernanda pede o vinho ao garçom, que traz em seguida, servindo-as.

– Vamos brindar.

– Brindaremos a que?

– À nossa nova amizade e à minha alta.

– Ainda não te dei alta.

– Está jantando comigo como minha terapeuta? Você não disse que não poderia fazer isso?

– Posso sim. É uma análise fora do consultório. Quero ver como você se comporta.

– Sei. Tim-Tim!

Enquanto jantam, conversam sobre o que levou Fernanda a ter que fazer terapia e cumprir a ordem judicial.

– O que você faria se visse uma criança sendo espancada em um shopping ou em qualquer outro lugar? Eu não aguentei, tive que fazê-la parar.

– Você poderia ter resolvido isso de outra maneira.

– Como?

– Chamando a segurança do shopping, ligando para a polícia, tentando um diálogo com a mulher.

– Eu tentei. Mas ela me mandou calar a boca e disse que eu não deveria me meter em assuntos familiares. Pedi que ela parasse de bater na menina, que estava chorando, assustada. A mulher continuou gritando com a garotinha e batendo nela. Aí, não me segurei. Dei um empurrão na mulher, ela caiu dentro da fonte, e saiu gritando pelo shopping, dizendo que estava sendo agredida.

– Não havia testemunhas?

– Havia, e muitas! Mas parece que as pessoas tem medo de fazer o que é certo, não querem se envolver. Se elas tivessem dito o que a mulher estava fazendo com a menina, nós não estaríamos aqui jantando. Bom, há males que vem para o bem.

Depois do jantar, no carro, Fernanda tenta beijar Gislene.

– Não, Fernanda.

– Por que não? Você não quer?

– Não é isso. É que… Não está certo.

– O que não está certo, é você e eu querermos este beijo e ele não acontecer.

No motel…

– Nossa! Ai, Fernanda! Isso é tão bom…tão gostoso…tão… Ah…

Uma semana depois, Fernanda está no ateliê com sua irmã, para a escolha do vestido de noiva.

– Adorei esse. O que você acha, Fernanda?

– Você ficou linda com todos os vestidos que experimentou. Você só tem que lembrar de uma coisa.

– Do que?

– Você vai se casar na cidade mais fria do mundo e estes vestidos são para o clima brasileiro. Você vai congelar, irmãzinha.

– Ah, meu Deus! Esqueci desse detalhe!

– Tenha calma, Fabiana! Já sei qual vestido você vai usar. Espere, eu já volto.

A amiga de Fabiana sai. Minutos depois, volta com outro vestido de noiva.

– É este! Amei! O que achou, Fe?

– Linda! Muito linda!

– Você teve sorte, Fabiana! Este vestido foi criado há dois dias e ninguém ainda o tinha visto. Exclusivo para você, minha amiga.

– Sério? E quando posso levá-lo?

– Teremos que fazer alguns ajustes. Amanhã você volta para provar e ficando bom, te entrego em dois dias.

– Perfeito! Você vai ao meu casamento, não vai?

– Vou tentar. Farei o possível para ir.

Depois que saem do ateliê, Fernanda e sua irmã vão se encontrar com Christian, o noivo de Fabiana.

– Como vai, Fernanda?

– Estou bem e você, cunhado?

– Ansioso para casar com sua irmã.

– Oh, que lindo! Te amo, Chris!

O casal se beija, apaixonado.

– Vocês vão fazer o que?

– Vamos para o hotel. Por quê? Vai nos convidar para algum evento?

– Pensei em jantarmos juntos esta noite.

– Ótima ideia, maninha! No restaurante de sempre?

– Sim. Às 20 horas estarei lá, esperando por vocês.

No jantar, Fernanda lhes entregou o presente de casamento. Passagens de avião, e hospedagem, para o Caribe.

– Ah, meu Deus! Eu não acredito! Ah, Fe! Obrigada! – Disse Fabiana, abraçando a irmã.

– Obrigado, Fernanda. Sabia do sonho de Fabiana, mas não poderia dar-lhe esse presente de lua-de-mel.

– Vocês merecem! Quero que sejam muito felizes.

– Nós seremos, Fe! Nós seremos.

Após o jantar, Fernanda leva sua irmã e seu cunhado ao hotel e vai para casa.

No dia seguinte, ela recebe a ligação da doutora Gislene.

– Já falei com o promotor sobre sua alta. Está livre de mim, Fernanda.

– Que bom! Fico feliz!

– Fica feliz em se ver livre de mim?

– Não! Estou falando sobre a alta.

– Ah, fiquei preocupada. Você tem algum compromisso para esta noite?

– Sim. Vou ficar com minha irmã enquanto ela está no Brasil. Na próxima semana ela viaja para Londres e ficaremos algum tempo sem nos ver.

– Que pena. Pensei em repetirmos aquela noite maravilhosa. O jantar, o vinho… E todo o resto.

– Vamos deixar para outra ocasião. Até que minha irmã viaje, estarei com ela todas as noites.

– Está certo. Você tem meu telefone, quando quiser e puder, me ligue. Vou esperar.

Fernanda desliga o telefone e pensa:

“Vai esperando, doutora. Vai esperando!”

Londres – Casamento de Fabiana e Christian

– Parabéns, minha irmã! Desejo a você toda a felicidade do mundo. E se esse cara não te fizer feliz, fale comigo.

– Obrigada, mana! Te amo!

Festa, dança, boa comida, os noivos e suas famílias felizes… E uma linda mulher britânica, na cama, com Fernanda.

De volta ao Brasil, a rotina de Fernanda foi cortada por um convite especial.

– Claro que eu aceito!

– Obrigada, Fernanda! Você não imagina como me deixa feliz. Pensei que você não fosse aceitar ser minha madrinha de casamento.

– Por que pensou isso?

– Porque você não gosta dessas coisas de tradição, clichês.

– Realmente eu não curto isso, mas se é para a felicidade geral da nação… Você sabe que minha irmã se casou, não é? Fui madrinha dela também. Só faço isso por quem eu amo e respeito. Depois de Fabiana e de você, a lista acabou, não serei mais madrinha de ninguém.

– Você deveria se casar também.

– Isso está fora de cogitação. Prezo muito pela minha liberdade.

– Até que apareça a mulher que vai te fazer tremer na base, aquela que vai tirar o seu sono, te deixar nas nuvens e te enlouquecer de paixão!

– Lara, eu amo você. Por que está me rogando praga?

Lara dá gargalhadas.

– Não é praga. É fato! Ninguém consegue viver sem amor, Fernanda!

– E quem te disse que eu vivo sem amor? Eu me amo loucamente, sou completamente apaixonada por mim.

– Você é uma comédia, amiga!

– Diga-me onde e como será esse grande evento.

– Na fazenda, em Itatiaia.

– A fazenda de seu pai? Pensei que ele fosse contra a sua condição sexual e que a tivesse deserdado.

– Realmente ele era contra, mas meu pai faleceu há 3 meses e deixou a herança pra mim. Afinal, eu era a sua única filha.

– E sua mãe? Como ela está?

– Você sabe o quanto minha mãe sofreu por causa das traições de meu pai. Para ela, a morte dele foi uma libertação.

– E o que ela diz sobre você se casar com uma mulher?

– Ela não diz nada. Não sei se aceita ou não, mas estará presente no casamento.

– Vai ser bom rever sua mãe. Gosto muito dela.

– E ela de você. Sempre me pergunta como você está, se já se casou, se tem filhos.

– Diz pra ela que desse mal jamais vou sofrer.

Elas dão gargalhada.

– Fernanda, um dia antes do casamento, um helicóptero virá buscar você e 5 amigos, para levá-los à fazenda. Chegue com 15 minutos de antecedência, está bem?

– Sem problemas. É só me avisar o horário, e onde devo estar para pegar o helicóptero, que estarei lá.

– Obrigada, amiga! Agora preciso ir. Quero comprar algumas coisas para decorar a fazenda e deixá-la linda para o dia mais feliz de minha vida.

As amigas se despedem. À noite, Fernanda vai jantar e quando está saindo do restaurante, alguém a espera.

– Se Maomé não vai a montanha, a montanha vai a Maomé.

– O que está fazendo aqui?

– Vim te ver, já que não me ligou. Sabia que iria encontrá-la aqui. Gosto de pessoas que valorizam a rotina, isso me facilita muito a vida.

– O que quer, doutora?

– Você.

– Olha, aquela noite foi interessante, proveitosa, mas esqueci de te avisar uma coisa… Eu não costumo sair mais de uma vez com uma única mulher.

– É assim que você me trata depois do que eu fiz por você?

– Se você está falando sobre a minha alta, creio que estamos quites. Você me deu o que eu queria, e eu te dei o que você queria.

– Você não tem sensibilidade alguma, é incapaz de perceber o que faz com as pessoas. Você as usa e depois joga fora, como se elas fossem um lixo.

– Está me analisando? Este é o seu diagnóstico? Tudo bem. Faça as suas anotações e me enviei pelo correio. Adeus, doutora. Seja feliz!

Fernanda sai, entra em seu carro e vai para casa. Gislene chora.

Um dia antes de ir para a fazenda de Lara, Fernanda vai à boate e encontra Nina.

– Oi, mulher linda! Como vai?

– Olá! Nos conhecemos?

– Sou a Nina, amiga de Paula. Fomos apresentadas, não se lembra?

– Ah, claro! Desculpe-me.

Elas conversam e alguém se aproxima.

– Oi, meu amor! Fiquei louca te procurando, senti a sua falta. Por que não me telefonou?

– Você é…

– Lenise! Nos conhecemos aqui, fomos para o motel, você me deixou em casa… Não acredito que você não se lembra de mim!

– Lembro! Tudo bem com você?

– Agora que te encontrei, sim, tudo bem. Quem é ela?

– Uma amiga. Nina.

– Oi, Nina! Desculpe, mas você terá que nos dar licença. Fernanda e eu temos muito que conversar.

– Claro! Fiquem à vontade.

– Não. Fica, Nina.

– Amor, preciso muito falar com você a sós.

– Garota… Não temos nada para conversar, ok? Aquela noite foi interessante, proveitosa, mas foi… Acabou.

– Como assim? Do que você está falando?

– Eu que não estou entendendo do que você está falando.

– Estou falando sobre nós! Eu te amo! Foi amor à primeira vista! Desde aquela noite eu não consigo parar de pensar em você…

– Hei! Pode ir parando por aqui. Foi só uma transa. Esquece, ok?

– Só uma transa?! Eu terminei um namoro de 2 anos para ficar com você e é assim que você me trata?

– Terminou porque quis. Aliás, você fez um grande favor para o seu namorado. Ele vai ser mais feliz sem você. Você o traiu, saiu com uma mulher que nunca tinha visto na vida e vem com essa conversa de amor à primeira vista? Me poupe, garota! Nina, vamos sair daqui.

– Claro! Com prazer.

– Não, por favor! Não faz isso comigo, Fernanda. Não…

Fernanda entra em seu carro com Nina.

– Desculpe fazer você passar por esta situação constrangedora.

– Eu até me diverti.

– Quer ir para onde?

– Você manda!

Fernanda dá um sorriso malicioso.

– Ai, que delícia! Você faz tão gostoso, Fernanda! Hmmm… Assim…Isso… Ah…

Fernanda leva Nina de volta à boate, pois, seu carro estava lá.

– Obrigada pela linda noite. Adorei!

Nina abre a sua bolsa.

– Olha, nem adianta me passar o número de seu telefone, porque eu não vou ligar.

Nina tira um batom e passa nos lábios.

– Não vou te dar meu telefone. Boa noite, Fernanda!

Nina entra na boate e Fernanda vai embora.

– Menos uma para me dar problema.

Quinze minutos antes do voo, Fernanda estava no heliporto. Um homem aproximou-se dela.

– Bom dia! O voo vai atrasar um pouco. Se quiser, poderá aguardar no escritório.

– Qual o motivo do atraso?

– A pessoa que vai pilotar está presa no trânsito, mas já está chegando.

– Espero que a falta de responsabilidade com o horário, não interfira na capacidade de seu piloto em conduzir o helicóptero.

– Peço desculpas pelo incômodo. Gostaria de ir ao escritório e tomar um café, enquanto aguarda?

Fernanda aceita o convite e aguarda por 40 minutos. Da janela do escritório, ela vê 5 pessoas chegando ao heliporto.

– Alguma daquelas pessoas é o piloto?

O homem olha pela janela.

– Não.

– Obrigada pelo café.

Fernanda sai do escritório, indo em direção às pessoas que acabaram de chegar, e as cumprimenta.

– Bom dia!

– Bom dia, guria! Pensamos que estávamos atrasados.

– Vocês também estão atrasados.

– Tu vais voar conosco?

– Se o piloto chegar, sim.

– Então fique feliz, porque o piloto chegou.

Fernanda e as 5 pessoas olharam em direção ao escritório e viram uma pessoa vestida com roupas de pilotagem e com um capacete.

– Bom dia! Desculpem-me pelo atraso. Podem se acomodar, pois, já vamos zarpar.

O helicóptero levanta voo rumo à Itatiaia.

No Brasil Colonial, o local era habitado pelos índios Tamoios, Puris e Coroados. Em 1937, sob o governo de Getúlio Vargas, Itatiaia foi fundada como primeiro Parque Nacional Brasileiro. Sua economia já passou pela indústria cafeeira, exploração de carvão e atualmente é baseada no turismo.

Localizada na divisa dos estados do RJ e MG, Itatiaia é um dos poucos destinos onde o visitante encontra montanhas, com ótimos lugares para a prática da escalada em rocha e florestas úmidas, com deliciosas cachoeiras. O Parque é dividido em duas partes: a alta, onde encontramos as montanhas, com destaque para o Pico das Agulhas Negras e a baixa, onde predominam as cachoeiras ideais para banho. Um ótimo roteiro para quem gosta de caminhadas.

A temperatura média anual varia entre 15ºC e 27ºC. No inverno pode variar entre 3ºC a 20ºC e no verão entre 25ºC a 28ºC. Para quem vai para parte alta do Parque recomenda-se a temporada entre abril e setembro. Nessa época do ano o clima é seco, apesar de muito frio (geadas são comuns nesse período). Na parte baixa não existe estação seca. O verão é ideal para os banhos de cachoeira, devido às águas geladas.

Itatiaia-RJ – a 170 km do Rio de Janeiro e a 230 km de São Paulo. (fonte: http://www.google.com)

O helicóptero pousa no lindo gramado da fazenda.

– Com licença, senhor. Quero avisá-lo que farei uma reclamação formal à Compania na qual o senhor trabalha. Além do atraso, sua pilotagem foi de uma total insegurança, que colocou em risco a vida dos passageiros.

O piloto retira o capacete, e lindos cabelos negros e longos, voam ao vento. Fernanda fica surpresa ao ver que o piloto é uma mulher.

– Tem toda razão. Peço desculpas pelo atraso. Entretanto, o voo que a senhora achou inseguro, foi devido aos ventos fortes. Mas chegamos sãos e salvos. A senhora quer me dizer mais alguma coisa?

– Você é uma mulher?!

– Sim! De corpo, alma e cabelos. Tem algum preconceito sobre mulheres que pilotam?

– Não. Tenho conceito formado sobre pessoas que não cumprem horários.

– Está certo. Faça a sua reclamação formal. Para isso, vai precisar de meu nome. Laila Conrado, ao seu dispor. Tenha um lindo dia, senhora!

Laila anda em direção á casa e Fernanda a observa.

– Linda mulher! Só precisa ser domada. E eu, terei um imenso prazer em fazer isso, Laila Conrado.

CONTINUA…

23

OBS: Apenas um nome é real, mas as ocorrências não fazem parte da

realidade. Juliana Farina autorizou usar seu nome.

copyright© – Todos os direitos reservados

Plagio é crime e está previsto. no artigo 184 do código penal.