SEDUZA-ME

  

Acabo de perder minha mãe. Minha única família! Minha única amiga. Estou sozinha agora.
Meu marido se separou de mim para ficar com uma jovem, que poderia ser minha filha, nossa filha. Mas nem filhos nós tivemos.
Só existe uma coisa que preenche esse espaço vazio em meu coração: meu trabalho.
Dinah, uma colega, sempre tenta me seduzir com viagens exóticas. Constantemente, ela entra em sites de agência de viagens e tem o sonho de fazer um cruzeiro. Sempre me diz:
– Vamos amiga! Será uma viagem inesquecível!
Não sei por que ela me chama de amiga. Não somos amigas, apenas colegas de trabalho.
Uma vez, Dinah não estava em sua mesa, e vi um site aberto em seu computador. A propaganda era sedutora:
“Você, que se sente só, que não tem ninguém, venha viajar conosco em um cruzeiro inesquecível!”
Vi os preços, destino, fotos do navio e isso me chamou a atenção. Peguei o número de telefone que constava no site e telefonei para a agência. Em duas semanas eu estaria de férias. Marquei a viagem e claro, não falei para Dinah. Nada tenho contra ela, ao contrário, até gosto dela, mas estou sozinha e quero continuar sozinha comigo mesma.
E lá estava eu, a bordo de um luxuoso navio. Do Rio para Santos, de Santos para o Rio. Quatro dias e quatro noites.

Primeiro dia:
Almoço com o comandante. Ele em uma mesa com alguns convidados e os passageiros espalhados pelas mesas do grande salão do restaurante.
Primeira noite:
Jantar com o comandante. Idem.

Música ao vivo, de qualidade.
Pessoas rodopiando pelo salão. Alguns homens distintos me convidaram para dançar. Recusei.
Eu, sentada à mesa, depois de dispensar os elegantes cavalheiros, observei que uma mulher morena, com cabelos longos, pretos, lisos, presos com um rabo de cavalo, estava me olhando e… Sorrindo! Quem será? Talvez uma colega da faculdade? Não estou reconhecendo.
Em certo momento, a mulher levantou a taça em um brinde. E continuou sorrindo para mim. Desviei o olhar. Aquele sorriso começava a me incomodar. Mas olhei novamente e lá estava ela… Sorrindo! Pude ver que seus olhos eram verdes.
Levantei-me e fui em direção à minha cabine. Na passagem entre o salão e o corredor que leva às cabines, a mulher sorridente impediu o meu caminho.
– Com licença, por favor.
Falei um tanto irritada. Ela sorriu… De novo!
– Você não me ouviu?
– Ouvi. Por quê?
– Por que o que? Por que peço licença?
– Não. Por que vai embora?
– Porque estou cansada e vou dormir.
– Sozinha?
– Sim. Sozinha.
– Um desperdício!
– O que?
– Bem, pensei em sentarmos, tomarmos uma bebida, conversarmos… Ainda é cedo para dormir. Está uma linda noite!
A mulher tinha um sorriso irônico, mas encantador!
– Olha…
– Por favor! Só uma conversa! Você está sozinha, eu também. Por que não?
Pensei durante algum tempo e ela falou:
– E então? Vamos?
– Não sei. Eu estou cansada e, para falar a verdade, estou sozinha por opção.
Bom, não era bem essa a verdade, mas tudo bem! Ela não me conhecia mesmo!
– Faremos o seguinte, nos sentamos, bebemos, conversamos e se você não gostar, prometo que deixo você ir. O que me diz?
– Está bem. Mas não vamos demorar.
Fomos para o bar.
– O que quer beber? – Perguntou-me.
– Um dry martini.
O barman anotou nossos pedidos e fomos para fora, onde havia mesas e cadeiras.
O céu estava lindo! Estrelas brilhantes e uma lua cheia, branca!
– Concordo. – Disse ela.
– Concorda com o que? Não falei nada!
– Seu olhar e seu sorriso dizem tudo! Você está pensando em como as estrelas e a lua deixam o céu ainda mais bonito. Não é isso?
– Sim! Mas como…
Ela sorriu e falou:
– Ainda não nos apresentamos. Muito prazer, meu nome é Helena.
– É um prazer conhecê-la, Helena. Meu nome é Raquel.
– Raquel! Lindo nome!
O barman nos trouxe as bebidas e sentamo-nos à mesa.
– Diga-me, Raquel! Em que trabalha?
Contei-lhe sobre meu trabalho, sobre a morte de minha mãe, sobre meu ex-marido, e a conversa fluiu leve, descontraída, agradável. Ela me ouvia atenta, e às vezes, soltava aquele sorriso… Lindo!
Depois ela começou a falar sobre sua vida. Helena me pareceu ser uma mulher inteligente, culta.
Tomei um… dois… três martinis. Estava gostando de conversar com Helena. Ela me contou algumas histórias que me fizeram rir. Nossa! Há quanto tempo eu não ria, não sorria! Estava me sentindo bem e… Tonta.
– Helena… Desculpe-me… É… Bem… Estou adorando nossa conversa, mas… Eu…
– Tudo bem, já entendi. Vou te acompanhar até a cabine.
– Não precisa! Eu posso…
Falei, me levantando, e se ela não me segurasse, com certeza, eu iria me estatelar no chão.
Quando ela me segurou, nossos rostos ficaram tão perto, e o olhar dela era tão… tão… Opa! Eu devo estar ficando maluca ou estou mais bêbada do que eu pensava.
Helena me levou até a cabine, abriu a porta, me deitou na cama e ficou me olhando de um jeito que eu não entendia. Ela sorriu, e seu sorriso me fez sentir arrepios. Eu sorri também. Então, ela foi se aproximando devagar, e nossos lábios estavam próximos! Fechei meus olhos, entreabri a boca e… Ela me beijou. Um beijo que me fez tremer, e uma sensação avassaladora tomou conta de meu corpo.
Era claro que eu não estava em meu juízo perfeito… Eu estava me deixando ser beijada por uma mulher! E um beijo tão gostoso!
Entreguei-me por completo. Um desejo enorme tomou conta de mim, e ela sentiu isso.
De repente, me vi nua, e ela sobre meu corpo, tomando, possuindo, invadindo… Ah! Deixei-me levar por esse caminho desconhecido, mas tão delicioso.
Suas mãos me tocavam suavemente, sua boca percorria cada canto de meu corpo e parecia conhecer bem o caminho. Eu gemia a cada toque, a cada beijo, e eu queria mais e mais!
Nossos ruídos de prazer se misturaram ao som do barulho do mar.
Mãos atrevidas, corpos suados, sussurros… Ah! Eu estava entorpecida! Movimentos mágicos, sem censura, sem medo, sem pudor… Simplesmente… Amor!
Adormeci, com o olhar penetrante de Helena.
No dia seguinte, acordei me sentindo leve, feliz! Tomei um banho, me vesti e fui para o restaurante, na esperança de encontrar Helena e tomarmos o nosso café da manhã, juntas.
Helena não estava no restaurante. Pensei que ela ainda pudesse estar dormindo. Tomei o café. Nossa! Há tempos eu não sentia tanta fome!
Andei pelo convés, passando pela piscina, fui até a academia, voltei ao restaurante… Nada de Helena. É… Talvez ela ainda esteja dormindo.
Hora do almoço e Helena não apareceu. Anoiteceu e Helena parecia ter sumido.
Jantar, música, dança e… Uma flor feita de papel colocada em minha mesa. Olhei para ver de quem era aquela mão me ofertando a flor. Era ela! Helena!
Meu coração começou a disparar, fiquei nervosa, não sabia o que dizer. Eu me sentia como uma adolescente tola. A única coisa que consegui dizer foi:
– Onde você se meteu o dia todo?
Ela me deu aquele sorriso torto, sedutor, lindo! E com certeza, eu corei. Eu não tinha outra coisa melhor para falar? Desculpei-me:
– Desculpe-me! Eu…
– Nada a desculpar. – Disse-me, dando um beijo no canto da minha boca. – Já jantou?
– Ainda não. – Falei, tentando disfarçar meus arrepios.
Jantamos, bebemos vinho, dançamos… Com tantos homens no salão, eu preferi dançar com ela. Senti-me envergonhada por dançar com uma mulher, mas com Helena, o tempo parecia parar, as pessoas pareciam não existir, era somente ela e eu.
As horas passaram agradáveis, e eu tentava controlar minha excitação. Sentir Helena tão próxima de mim, me abraçando, me tocando, sentindo sua respiração em meu ouvido, me deixava tonta.
Voltamos à minha cabine e o ritual de prazer se repetiu. Desta vez, não quis me embriagar de vinho, queria me embriagar de Helena.
No dia seguinte, a mesma coisa. Helena sumiu e nos encontramos à noite, no jantar. Eu precisava perguntar. E… Perguntei:
– Você dorme o dia todo?
– Não.
– Desculpe perguntar, mas por que você some? Eu ando por todo o navio e não te acho.
– Você procura por mim? Gostei de saber disso. – Disse, sorrindo.
– Não! Eu apenas fico passeando e… Bem, eu… Não vejo você. Fiquei curiosa em saber como você consegue sumir dentro de um navio.
– Eu não sumo.
– Ah, some sim! Não vai me dizer?
– Não. Ainda não. – Ela dá um sorriso debochado. – Gostaria de ir mais cedo para a sua cabine hoje. – Desta vez, o sorriso foi sedutor, convidativo.
Não pensei duas vezes, fomos naquele mesmo instante para a cabine. A minha cabine.
Paixão, tremores, suores, sussurros e gemidos… Não quero que acabe! Não quero! Eu quero mais! Eu quero para sempre!

Último dia:
Onde estará Helena? Preciso vê-la, preciso tê-la.
Última noite:
De volta ao Rio de Janeiro. De volta para casa. Sem Helena… Sem Helena!

Dias se passaram, eu estava de volta ao meu trabalho. Não sentia vontade de fazer nada, não queria falar com ninguém, não queria nada, apenas… Encontrar Helena.
Três semanas depois, no final da tarde, fim de expediente, eu saí do trabalho e fui para o estacionamento pegar meu carro. Era sexta-feira e teria um feriado prolongado pela frente. Eu estaria sozinha por 4 dias. Quatro longos dias!
Abri a porta do carro e ouvi alguém chamando meu nome.
– Raquel? Senhorita Raquel?
Olhei para ver quem era. Era um homem alto, magro, cabelos grisalhos, com um sorriso simpático nos lábios.
– Com licença. A senhora é Senhorita Raquel?
– Sim, sou eu. E o senhor, quem é?
– Vim buscá-la.
– Veio me buscar? Para ir aonde?
O homem me entregou uma flor feita de papel.
– A pessoa que me mandou buscá-la disse para lhe entregar isso, que a senhora entenderia.
Meu coração disparou, minhas mãos ficaram trêmulas e suadas. De repente, fiquei sem ar.
– A senhora está bem?
– Não! Bem não! Eu estou ótima! Vamos! Leve-me aonde tem que me levar.
Entrei em um carro preto, e o simpático homem me levou até a marina. Desci do carro, e ele me acompanhou até um veleiro. Quando vi a pessoa que me esperava, eu quis gritar, correr, voar!
– Oi!
– Oi!
Entrei no veleiro e nos beijamos. Ah! Esse beijo que me leva às alturas, que me leva ao céu, que me leva ao paraíso!
Encontrei! Encontrei Helena! Na verdade, ela me encontrou.
– Podemos ir senhorita Helena? – Perguntou outro homem, era o capitão.
– Sim, por favor!
Conversamos, e Helena me explicou tudo. Seu sumiço durante o dia era porque ela é chef de cozinha do navio. Demorou a me encontrar, porque saiu em nova viagem. Encontrou-me através das informações que eu mesma lhe fornecera em nossa primeira noite.

Na cama, à meia luz, nossos corpos nus.
Beijos indecentes…
Carícias… Ousadas… Atrevidas…
Estremeço… Entonteço…
Envolvente… Atraente… Irresistivelmente…
– Helena!

FIM

   

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Plagio é crime e está previsto. no artigo 184 do código penal.

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