Insanidade

Não consegui ficar confortável em minha cama. Não importava a posição do travesseiro ou do meu corpo: nada diminuía a agunia que eu sentia.

Meu coração doía  meu corpo estava irritado, parecia que eu estava deitada em cacos de vidro, ou em pedras pontudas, e os lenções que me encobriam eram feitos de lixa.

Afastei as coberta, e me dirigi para a sacada do prédio  Precisava de um pouco de ar fresco  Sentei-me na cadeira de balanço cobrindo os meus pés descalços com a barra de minha camisola.

Não conseguia parar de pesar nela. Praguejava e lembrava-me da insanidade temporária daquele relacionamento. Em cada imagem de nós juntas que me vinha à memória, meu corpo parecia levar um choque. Ela era dócil e amorosa, uma perfeição feminina. Eu não conseguia acreditar que ela fosse tão manipuladora, tão horrível. Meu Deus, eu não fui só inocente, também fui uma idiota.

Quanta coisa eu suportara por ela. E ela nem se quer fazia ideia do quanto era difícil. Mais quer saber, nesse momento eu não acredito mais em nada. Na continuação desse relacionamento. Desse sentimento. A única coisa que eu ainda acredito é na essencialidade do amor, algo que faltava na minha vida. Algo que ela nunca sentira por mim.

Talvez agora seja a hora de eu começar a confiar no destino.

Meu fracasso para conquistá-la havia deixado minha autoestima no chão. Chegando ao ponto de afetar minha sanidade por ela.

Emily não tinha consciência do quanto eu havia sofrido.

Eu reconheço que parte da culpa é minha. Mais eu só tentava ser digna. Uma possibilidade de compartilhar uma vida com ela.

Queria acreditar que a rejeição estaria relacionada às falhas dela, e não as minhas.

Mais qual foi o resultado disso tudo?

Ela encontrou outra que a interessava mais?!

Meu Deus, a recompensa por todos os meus esforços era a injustiça francamente cruel. Como estou sofrendo.

Emily por outro lado, sempre esteve bem. E não me restava dúvida de que agora, então, estava ótima. Naquele instante mesmo, provavelmente estava nua na cama com outra garota. Senti uma inveja intensa e sufocante.

Fechei os olhos.

Pensei na sensação de ter seu corpo, de ter seus braços me consumindo. Ver seu fragiu corpo. Como alguém conseguia ser tão forte e vulnerável ao mesmo tempo? Impressionante! Emaranhar as minhas mãos em seu cabelo, sua boca sugando fortemente meus lábios.

Isso chegava ser irônico.

Eu sonhara tanto tempo com aquela situação; ser possuída por ela. E agora não tinha mais nada.

Sempre que imaginava qualquer sena com ela, meu corpo formigava, e um calor acendia. Mais a realidade era sempre esmagadora. Eu sabia que isso ia acontecer mais eu não estava preparada em absoluto. Quereria ter tido mais tempo, que tivesse sido um pouco menos intenso.

Mas eu tenho que reconhecer que ela nunca pensará em mim. Fechei as mãos, até cravar minhas unhas na palma. Queria apagar todas as lembranças com ela. Mas minha mente insistia em vagar por elas…

Muito confortável. Muito intimo, pensei. Bom de mais para ser verdade.

Aperteia contar mim.

Ah, que droga. Ela fizera alguma coisa com meu cérebro e meu coração.

Seu corpo era quente, suave, leve, gostoso. Sua pele emanava um perfume embriagador, que me deixava tonta. Seus lábios gritavam por milhões de beijos. Beijos que eu estava totalmente disposta a dar. Toda hora.

Droga. Meu coração estava partido, mas meu amor, ainda estava estranhamente intacto por ela.

Interrompi meus pensamentos antes que eu entrasse em uma ilusão sem volta.

Olhei a lua cintilante no céu pontilhado por estrelas. A noite estava incrivelmente linda, mais nada parecia lindo o bastante para me alegrar.

Meu telefone tocou, quebrando o silêncio perturbador da casa. A ligação era anônima.

-Oi?- eu disse.

-Oi, Olivia, sou eu – eu ouvi. Eu havia pegado no sono na cadeira e nem havia percebido?! Isso! Era exatamente um sonho. Delirante e sem logica que estava me perturbando. – Como você está? –

-Estou bem. – eu disse rápida e convincente. A raiva e o alívio entraram em conflito dentro de mim. Quereria que realmente aquilo fosse um sonho idiota.

-Olivia- ela tinha angústia em sua voz que me dava uma pequena quantidade de conforto. Ela se arrependera, ou, estava me manipulando novamente? – Posso ver você? Posso passar na sua casa? Preciso te ver. Falar com você. Realmente preciso. –

Minha mente ficou a mil. Deveria dizer não? Meu peito estava apertado, eu realmente precisava dizer não. Que não era uma boa ideia. Mais eu não conseguia. Mesmo sabendo o porquê de ela estar me procurando, eu não conseguia negá-la, como ela fizera comigo. Eu não conseguia pôr um fim definitivo àquela situação.

-Posso passar em sua casa agora?-

-Tudo bem. – me arrependi de imediato com minha resposta.

-Obrigada. Estou chegando. – sua voz estava fria. Fria demais. Indicando indiferença.

Os pelos do meu corpo se arrepiaram.

Recuperei o fôlego percebendo que ainda era a sua voz a minha preferida, em todo o universo.

Quando abri a porta e pedi que entrasse, ela abriu um sorriso vergonhoso sem mostrar os dentes. Seus perfeitos dentes. Mudei minha expressão varias vezes, tentando mostrar neutralidade. Eu não sabia o que esperar.

Ela permaneceu irritantemente silenciosa, enquanto eu suspirei e falei:

-Estou descumprindo promessas – promessas que fiz a mim mesmo, com o peito apertado de receio e expectativas.

Ela me lançou um olhar confuso. Abriu a boca para falar, mais o silencio ainda permaneceu. Logo depois de morder os lábios ela disse:

-Não sei exatamente porque estou aqui. Creio que lhe devo uma explicação. – ela disse com a voz angustiada e oscilante. Eu sabia aonde isso chegaria e queria que ela fosse direto ao assunto.

-Não precisa fazer isso… – eu falei balançando a cabeça em forma de recusa.

-Preciso. Você sabe que preciso. Não fui justa com você. Não fui justa com a gente. – ela pegou minha mão, mais me afastei subitamente. Eu queria certa distância. Não conseguia dizer se era medo, orgulho ou rancor. Ela me olhou triste. -Preciso que me perdoe… –

-Sabia que era peso na consciência! – eu dei uma risada curta e nervosa. Mas ela nem ligou.

-Não, Olivia. Magoei-te, e isso dói tanto em mim quanto em você. –

-Ainda não entendi exatamente o que veio fazer aqui. – eu disse fria.

Ela me olhou de forma inflexível.

Ela não tinha ideia de que seu erro me fizera aprender a me defender com um muro de desconfiança. Minha frieza tocara seu coração.

-Você está feliz? – perguntei, enquanto seus olhos se abriram aos poucos.

-O que quer dizer? Como assim? –

Tenho certeza de que ela sabia exatamente o que eu queria dizer, mas ainda sim tentei ser mais clara:

-Você está feliz com ela?-

-Porque acha que estou com alguém? – ela disse ríspida, recusando-se a falar sobre o assunto. Olhou-me desorientada. – Talvez apenas algo tenha mudado em nossas vidas. Em mim. –

-Não intendo. – oscilei entre o desespero e a calma.

-Eu também não. –

-Então me diga o que esta sentindo – eu disse, suplicando.

Ela me olhou nos olhos e falou:

-Eu não sei o que estou sentindo. –

Eu estava em um momento de particular desespero. Aquelas poucas palavras tinham tanto significados. O peso daquelas palavras deixou-me sem ar. Era a revelação que estava esperando, e agora que a encontrara, não sabia ao certo o que fazer com elas.

-Você me ama? – eu perguntei. Ela pareceu procurar pela resposta certa, qualquer que fosse.

Eu esperei, e esperei, e esperei mais um pouco. Seu silêncio apagou minha esperança. Eu me preparei, percebendo que nenhuma resposta dela me deixaria feliz, depois dessa revelação. Quando não conseguia mais suportar a ansiedade, por nem mais nem um segundo, ela finalmente respondeu:

-Não como merece. – ela disse tentando me proteger, mais era tarde demais.

Soltei um suspiro profundo, sentindo-me zonza e nauseada.

As feridas que eu achava que tinha cicatrizado há tanto tempo, estava subitamente recente e em carne viva em meu peito, sangrando. Rancor. Magoa. Angustia. Naquele momento eu a odiara.

Senti uma tristeza aguda naquele instante, sabia que assim que as coisas seriam daquele momento em diante.

-Você merece mais Olivia. Não sei se sou capaz de lhe dar o que precisa o que merece. – sua voz entregava seu anseio e, ao mesmo tempo, exprimia certa culpa.

Meu coração bateu mais forte e doía ao mesmo tempo, enquanto a olhava nos olhos e me inclinava em sua direção. Nossas faces a poucos centímetros de distância.

-Preciso de você. – não segurei meu desespero. – é a única coisa que sei. Se te mereço ou não, não me importa. Eu. Preciso. De. Você. –

Nossos lábios se encontraram em um beijo que começou aos poucos, hesitante, tímido, mas que se tornara rapidamente urgente.

Simplesmente não conseguia controlar o que sentia por ela… Simplesmente não conseguia.

Tudo aquilo era assustadoramente possível?

Eu estava esperando ansiosamente que nós duas, em breve, começássemos a nos tocar em todas as partes do corpo e torcendo para que, talvez um dia ela pertencesse somente a mim.

Meu coração pulou, pensando em como eu amava o corpo dela, seu toque, seu gosto e seu cheiro. Em como amava o som da sua voz e como ela olhava pra mim… Como amava seus olhos. Eu a amava, essa era a verdade, e tenho medo de pensar que sempre será a verdade.

Ela parou subitamente e agarrou meu braço, me olhando profundamente e disse:

-Olivia. Você é maravilhosa. Cada segundo ao teu lado… é maravilhoso. –

Concordei com sua afirmação. Realmente era maravilhoso estar ao lado dela, não havia como negar. De jeito algum.

Eu agradeci optando acreditar que ela estava sendo sincera fosse isso real ou consolador.

Sabia que ela havia ido ali para partir meu coração.

-Mas? – perguntei. Eu sabia que havia um mas, sempre há.

-Mas não posso. – disse – Não posso fazer… isso. – Sua voz falhou.

Fiquei tensa, minha garganta fechou. Não consegui dizer nem se quer uma palavra.

Essa seria sua posição final? Ou será que eu deveria insistir no assunto?

-Porque? – balancei a cabeça, ignorando sua decisão. Mordi os lábios, enquanto as lágrimas faziam meus olhos arderem.

-Só não posso ir tão longe com você. Achei que sentia algo por você, mais percebi que estava errada. –

Concordei triste, ela continuou:

-As coisas não estão ótimas nesse momento, e não sei futuramente. Hoje, neste momento, não posso ficar com você. Simplesmente não posso, por mais que eu deseje estar. –

Mordi os lábios com ainda mais força, minha respiração acelerava na minha ultima tentativa de não começar a chorar.

-Sinto muito – ela disse. – Sinto muito mesmo ter feito isso com você. Fui egoísta e errada… Queria dizer que um dia possamos ficar juntas… sei que quer ouvir isso, que as coisas serão diferentes. Mais isso também seria egoísta, não acha?! “Uma promessa falsa”?! – ela falou se perguntando. Pelo menos estava sendo sincera.

-Uma maneira de me manter esperando. – eu completei.

Ela concordou tomada pela dor.

Agora eu tinha minha resposta. Ela me amava, mas preferia não me amar. Eu a queria, mas ela não, então não poderia tê-la. Senti-me desmoronando por dentro.

-Eu nunca vou te esquecer. – ela disse. Aquelas palavras foram o mais próximo que ela chegou de admitir que também me amasse.

Ela se inclinou em minha direção, estendendo o braço para colocar uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.

Eu estremeci.

-Eu tenho que ir. –

Agarrei seu pulso:

-Emily, espera. – chorei. -Não consigo deixar que saia assim. Não posso. Eu te amo. – minha voz falhou, mas consegui me controlar.

Ela balançou a cabeça em forma de negação.

-Não torne isso mais doloroso para mim e para você. Deixe-me ir. Não me diga essas palavras. –

-Não posso acreditar que a conversa acabou. Que nos terminamos. –

-Mais tem que acreditar. Tem que me esquecer. –

Minha visão ficou turva. Não vendo mais razão para insistir naquilo deixei que ela se fosse.

Quereria que ela tivesse saído de dentro de mim, como saiu pela porta; para nunca mais voltar, sem esforço.

Autora:  Anna Karoline

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