ERA UMA VEZ PARTE III

Será mesmo que conhecemos as pessoas?

Acordei disposta a voltar para casa. Tomei banho, me arrumei e desci para o café da manhã. Quando cheguei ao restaurante, algumas das meninas já estavam comendo. Eu me servi, e quando ia me sentar a uma mesa, uma das meninas me chamou.

– Bia, vem cá, sente-se conosco.

Era Priscila, a organizadora da viagem. Pri tinha 43 anos, baixa, gordinha, morena, um sorriso lindo e era muito engraçada.

– Por que você não quis sair conosco ontem? Foi muito legal.

– Eu estava cansada. Preferi dormir.

– Mas hoje você não escapa. Você vai, nem que eu tenha que te carregar.

Eu ri.

– Vou voltar para casa, Pri.

– O que?! Por quê?

– Surgiu um imprevisto.

– Aconteceu alguma coisa? Alguém de sua família…

– Não, está tudo bem. Nada aconteceu com minha família, apenas preciso voltar.

– Bom dia, meninas!

Era Ju. Ela nos beijou e saiu para se servir. Em seguida, ela e Linda se sentaram à nossa mesa. Eu precisava tomar muito cuidado para não chamar Luana de Linda.

Começaram a falar sobre a noite anterior na cidade, e faziam planos para esta noite. A conversa estava animada. Todas as meninas foram chegando e nos cumprimentando. Linda não parava de me olhar, e isso estava me incomodando.
Em certo momento, o recepcionista do hotel veio à nossa mesa.

– Com licença. Quem é Bia?

– Sou eu.

– Desculpe interromper, mas uma pessoa a aguarda na recepção.

Uma pessoa? Quem seria? E por que havia chamado a mim?

Levantei-me e acompanhei o recepcionista até o saguão. Ele apontou a pessoa que me esperava. Era um rapaz.

– Pois não. Você quer falar comigo?

– Bia? Você é a Bia?

– Sim, sou eu. E você? Quem é?

O rapaz parecia nervoso, aflito.

– Eu pensei muito em não vir, mas precisava ver você, te conhecer, precisava falar, contar a verdade…

– Que verdade? Quem é você?

– Sinto muito, não foi por mal, eu juro!

– Moço, eu não sei do que você está falando. Será que não está me confundindo com alguém?

– Não estou confundindo. É com você mesma que quero falar, Bia.

– Então fale!

– Não sei por onde começar… É tão difícil!

Ele realmente estava muito nervoso. Ele tentava falar algo, mas sua voz não saía, ele gaguejava. Senti pena.

– Você está se sentindo bem? Quer uma água, um café, um…

– Não quero nada. Por favor, deixe-me falar.

– Estou deixando, mas você não diz nada.

– Bia… Eu… Eu…

– Você…

– Eu sou a Amiga.

– O que?

– Eu sou a Amiga.

– Que brincadeira é essa?

– Perdoe-me, por favor! Era uma brincadeira no começo, mas eu fui tão bem recebido por você e por suas amigas, vocês me trataram com tanto carinho, que eu não consegui lhes contar a verdade, não queria que me expulsassem da sala. E o pior de tudo foi que eu… Eu me apaixonei por você.

– Espera… Você está me dizendo que você… Que Amiga, na verdade é… Amigo?!

– É isso.

– Mas que droga! Será que ninguém consegue ser sincera… Sincero? Será que ninguém é real? Isso só pode ser uma brincadeira. Já sei! Você é amigo da Amiga, ou irmão, ou um primo, e ela está escondida em algum lugar e…

– Não, Bia. Eu sou a Amiga. Perdoe-me! Juro que não fiz por mal.

Sentei-me no sofá e tentava digerir esta nova revelação. Primeiro, Linda é casada, e com uma amiga. Agora, a Amiga é… Homem?!

– Bia, eu sinto muito! Não era minha intenção enganar ninguém, mas as coisas aconteceram tão rápido que eu nem… Desculpe!

– Você tem ideia do que eu estou passando? Você imagina quanta decepção estou tendo com a Internet? Não! Você não sabe, realmente não sabe de nada. Por que fez isso? Por que ela fez isso? Eu confiei em você! Confiei nela!

Não consegui me controlar e chorei.

– Bia, por favor, não chore. Desculpe-me!

Nesse momento, algumas meninas chegaram, junto com Ju e Linda.

– Bia, o que houve? Por que você está chorando? – Perguntou Ju.

– O que você fez com ela? – Falou Linda, se dirigindo à Amiga, quer dizer, ao Amigo.

– Sinto muito. – Disse Amigo.

– Sente o que? Fala cara! O que você fez pra ela estar chorando? Quem é você?

– Ele é a Amiga. – Falei.

– O que?! – Gritaram todas.

– Amiga é homem. Na realidade, a Amiga é… Amigo.

– Bia, você está se sentindo bem? Você bebeu?

– Não, Ju. Não estou me sentindo bem e não bebi. É isso que lhes falei. Pergunte a ela… A ele.

As meninas fizeram um círculo em volta de Amigo, elas estavam furiosas.

– Meninas, acalmem-se, por favor! Eu vou explicar…

– É, vai explicar sim. Pode falar, estamos ouvindo. – Disse uma delas.

Amigo contou-lhes a mesma coisa que havia me dito. As meninas queriam linchá-lo, mas eu me intrometi.

– Parem com isso! Vocês estão loucas?

– Bia, ele te enganou, enganou a todas! Ele merece uma surra.

– Não foi só ele quem me enganou.

Ops! Acho que falei demais!

– O que disse Bia? – Perguntou Pri.

Vi o olhar de Linda sobre mim.

– Nada. Saiam, deixem-me falar com ele, já me sinto melhor.

– Tem certeza Bia? Não sei se é bom você ficar sozinha com esse cara.

– Tudo bem, Pri. Não estarei sozinha, o recepcionista está bem ali, e tem os seguranças do hotel lá fora. Agora me deixem sozinha com Amiga… Quer dizer, com Amigo.

Meio contrariadas, elas fizeram o que pedi e saíram.

– Sente-se aqui, Amigo.

Ele se sentou.

– Bom… Primeiro, diga-me o seu nome.

– Ricardo.

– Muito bem, Ricardo! Você nos enganou, mas teve coragem de vir e nos contar a verdade. Poderia não ter vindo, e quando nos encontrássemos no MSN, poderia dar qualquer desculpa para não ter vindo e continuar com essa farsa. Não digo que estou feliz com o fato de você ser homem, principalmente, porque mentiu, mas… Não estou em condições de condenar você. Você diz estar apaixonado por mim…

– Eu te amo, Bia.

– Espere! Deixe-me falar. Ok, você me ama. Mas sabe que não gosto de homens, gosto de mulheres e amo uma mulher, portanto, se quer ser meu amigo, se quer continuar tendo contato comigo, terá que me esquecer e nunca, jamais, tentar qualquer coisa. Entende o que quero dizer?

– Entendo.

– Ótimo! Você tem duas opções. A primeira, me esquecer como mulher e me ver como amiga.

– E a segunda?

– Cair fora, sumir, desaparecer.

– Quero você como amiga. Prometo nunca tentar nada com você. Bia, você pode me perdoar?

– Perdoar ainda não posso, mas vou tentar.

– Por que disse que não fui só eu quem te enganou?

– É uma longa história!

– Quer me contar?

– Está bem. Prepare-se, Amiga! Quero dizer… Amigo.

Contei-lhe sobre Linda. Ele ficou indignado, mas ao mesmo tempo, feliz.

– Posso saber o motivo do sorriso?

– Desculpe.

– Não pense que por causa disso, você tem chance comigo. Nenhuma chance, ok?

– Ok. Já entendi isso.

Pri se aproximou de nós.

– Bia, nós vamos sair pela cidade. Você vem conosco?

– Vou sim, Pri. E Amigo também. Importa-se?

– Sim, me importo.

– Poxa, Pri. Ele é nosso amigo!

– Não é nada. Era amiga, quando era mulher. Mas é homem.

– Mas continua sendo nosso amigo.

– Caramba! Amiga é homem! Vou chamar as meninas.

– Eu vou pegar mais um casaco, estou com muito frio.

Amigo se registrou no hotel e subiu para o quarto dele, que ficava no mesmo andar que o meu.

As 27 mulheres e Amigo, saímos pela cidade. Fizemos compras, andamos de teleférico, comemos churros… A cidade era linda mesmo!

Apesar de tudo, eu estava feliz em ter Amigo comigo. Ele era a mesma pessoa da net. Divertido, inteligente, carinhoso… Apesar de ser homem! Não pelo fato de ser homem, mas por ter mentido. Eu tinha amigos homens, mas descobrir que Amiga era Amigo, foi uma decepção e uma surpresa.

– Bia, vem comigo, quero falar com você.

Disse Linda, me segurando pelo braço.

– Nem pensar!

– Por favor, é rápido! Ju foi ao banheiro.

– Não, Linda, me solte.

– Algum problema, Bia?

– Não, Amigo! Está tudo bem.

– Bia, vem, por favor.

– Eu disse não.

– Linda, ela disse não.

– Não se meta cara! Você nem deveria estar aqui.

– Mas estou e vou cuidar dela. Sei o que você fez e não foi muito diferente de mim. Aliás, acho que você fez pior.

– E eu acho que isso não é da sua conta.

– É da minha conta sim. Eu amo a Bia.

– Como é?! Bia… Ele…

– Sai daqui, Linda. Não quero falar com você.

– Ah, entendi! Você e ele…

– Cai fora, Linda.

Linda saiu furiosa.

Voltamos ao hotel e almoçamos. Todas iam dormir após o almoço, para que pudéssemos curtir a noite. Encontramos um bar GLS e iríamos dançar. Eu resolvi não voltar para casa.

Depois do almoço, subi para o meu quarto. Eu estava com muito frio e sono. Não tinha dormido bem durante a noite. Escovei os dentes, coloquei um pijama quentinho e me deitei. Dormi rapidamente.

Eu estava sonhando com Linda. Seus toques em meu corpo me faziam estremecer, me enlouqueciam! Ah, como eu queria que esse sonho fosse real… E era…

CONTINUA…

 

 

   

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